Vamos em seis meses, meio ano, 26 semanas, 181 dias e estamos naquela onda de balanços contabilísticos e emocionais.

Falamos, talvez demasiadas vezes, sobre as motivações que nos levaram a fazer esta viagem e a motivações que nos mantém nela.
Se inicialmente nos parecia uma viagem isolada, agora que aqui estamos e queremos prolongar estes sentimentos parece-nos que é só a primeira.
Estamos em constante mudança e construção de nós próprios é um facto, mas talvez agora com mais intensidade por estarmos fora da zona de conforto, que por sinal se tem revelado bastante menos desconfortável, do que consideramos inicialmente. Somos animais de fácil adaptação, diríamos.

Reflectimos muito sobre o que é a felicidade e se estamos felizes. Falamos dos pequenos prazeres da vida e contrariamente também tentamos perceber o que nos deixa tristes ou magoados.

Em conversas banais, percebemos que não é natural o ser humano questionar-se a si mesmo e aos outros sobre este assunto complexo que é, estar feliz.
São comuns as conversas do género, “O filho da Júlia, tem um bom trabalho, comprou agora o carro X. Está bem na vida!”.
Ficamos genuinamente felizes pelo filho da Júlia, mas o filho da Júlia está feliz?

O que temos, fazemos e o que conseguimos comprar é sobrevalorizado, mesmo que o dinheiro que usamos não seja em grande parte nosso.
O que somos, o tempo que temos para desfrutar com os que mais gostamos, ou a fazer o que nos deixa felizes é sempre deixado para segundo plano com aquela sede de ter mais e mais.

A divisa “ser e não ter” está na nossa cabeça e tentamos ampliá-la para todas as coisas do nosso dia-a-dia.

Estamos a tentar desamarrarmo-nos do intrínseco consumismo que domina a nossa sociedade, mesmo para isso seja preciso treino e algumas contradições.
Não somos radicais, mas este foi um exercício que nos permitiu poupar para viajar, agora é um exercício que nos poderá levar a viajar mais e queremos adoptar como um modo de vida.

Por conversas e ilações sabemos que não somos o exemplo utópico de “estar bem na vida”, seja lá o que isso for.
Convenientemente, nunca estivemos melhor.
Mais livres, soltos, despreocupados com o julgamento alheio e com tempo – esse factor dominante de todos os nossos movimentos rotineiros.

Em relação à família e conversas com os demais, não sabemos concretamente como é que os nossos pais e familiares descrevem a nossa situação actual, mas deduzimos que não é com o peito cheio de quem tem um filho a tirar medicina.
Somos um país de doutores – e nada contra os nossos amigos doutores, por quem temos o nosso maior respeito – no entanto, quem opta por se profissionalizar sem estudar, e trabalha em áreas “menos qualificadas”, quem opta por trabalhos sazonais ou quem escolhe ter um estilo de vida mais alternativo, leva com uma descrição menos pomposa dos outros, regada de elogios à toa por familiares, para compensar a falta de formação académica e talvez, ou não, um salário mais baixo.

Apesar destas contradições, todos nós somos motivo de orgulho de alguém. Especialmente da família, pois é isso que a família tem: orgulho pelos seus e, talvez, algumas vezes, erroneamente, desconsideração pelos demais.
E sabemos que depois de seis meses a nossa família está a morrer de saudades mas orgulhosa de nós, mesmo que inicialmente não acreditassem piamente nesta decisão.

 

A nossa viagem até aqui, foi respeitando algumas divisas e objectivos:

Não ultrapassar o budget diário. Fazemos uma média mensal claro, se há dias em que só pagamos comida, em outros temos o visto e transporte. Se passarmos, ninguém vai para o castigo, só tentamos ajustar.
Nunca passar fome, nem sede. Isto implica que tenhamos cortado muito no álcool e nas guloseimas e a maior parte das vezes comemos coisas que nem nos apetece muito.
Não há obrigação de dormir em casa de estranhos todos os meses, nem fazer um Workway em cada país. Mas se o conseguirmos ficamos muito felizes.
Não há limite de transportes nem deslocações, e andamos à boleia apenas quando nos sentimos seguros e confortáveis para tal.
Entramos por terra, ar ou mar.
Comemos comida típica e comida ocidental.
Fazemos uma tour se nos apetecer ou ficamos no local mais remoto.
Visitamos coisas dispendiosas como o Angkor Wat, mas às vezes deixamos de ir a uma cascata porque são mais dois euros.
Viver com o que temos na mochila. Sem luxos porque, o luxo de correr o mundo, é o único a que nos damos agora.
Ficar onde estamos felizes. Mudar se não nos sentirmos bem.
Ponderar todas as decisões tomadas. Tudo que inclua gastos desnecessários, ponderar muito.
Não definir com muita antecedência o fim, porque não sabemos quando ele pode chegar.

No meio disto, o importante é sair com a sensação de que estamos mais ricos pessoalmente e culturalmente.
Se recebermos sorrisos, um abraço, formos convidados a jogar futebol, a tirar uma foto ou uma conversa com locais, ficamos radiantes, se não acontecer não vamos forçá-lo.
Temos feito por aprender a história, a dinâmica e a realidade do país. Se bem que, cada vez com mais noção que por sermos estrangeiros, há coisas que só com muito tempo de permanência iríamos conseguir acompanhar.

 

A partir daqui vamos manter os mesmos moldes: budget limitado para nos obrigar a fazer sacrifícios e limitar opções e sem rota mega definida ainda que com ideia dos passos seguintes.

Vamos cumprir o workaway em Bali até ao fim, dia 4 de Abril. Com a obrigatoriedade de ter voo de saída do país, para extensão do visto, à pressão no outro dia, decidimos que o próximo destino será Singapura. Lugar onde não nos devemos demorar por causa da dimensão e do custo de vida.
Malásia está logo ao lado e logicamente será o passo seguinte.
A partir daí, está tudo em aberto e estamos com o feeling que os preços de um qualquer voo é que vão ditar a continuação desta história.

 

Durante algum tempo não acreditamos que pudéssemos ser nós, por isto ou por aquilo, as desculpas são sempre tantas. Agora, seis meses depois, às vezes ainda não acreditamos que estamos aqui, a viver a missão a que nos pruposemos:  descoberta do mundo e de nós próprios, desta forma tão intensa.

 

Deixemos, por favor de ser acérrimos desmotivadores de coisas e críticos compulsivos, se não impulsionadores de ideias e sonhos uns dos outros.

Prontos para mais uns meses,

Com amor;
Marta & Bag

1 de Março de 2019

Ao som de Patrick Watson – Luscious life

9 Replies to “Ser e não ter”

  1. Boa reflexao Marta! Na verdade, numa sociedade contemporanea como a nossa existe uma procura saciante pela felicidade. Existe tambem uma preocupacao de agradar os outros e ter mais que os outros e melhor! Desde que deixei o nossa querido Portugal e emigrei para o centro economico da Europa deparei-me com a seguinte situacao: pessoas com dinheiro e com telemoveis topo de gama mas… infelizes! Nunca as vejo sorrir! O dinheiro nao e felicidade e aquele emprego com que sempre sonhaste tambem pode nao ser o caminho para a felicidade! A felicidade mora nas coisas simples da vida… E na minha opiniao sao voces que estao bem na vida e com a vida! Sejam felizes e boas viagens!

    p.s: desculpa a falta de acentos!

  2. Resumem o sentimento e os princípios essenciais de levar a cabo um projecto de viagem d longo termo. Identificamo-nos. Obrigada pela partilha. Abraço

  3. 😊 tão bom!! Agradeço a vossa partilha!! 🥰 O reino da simplicidade, valorização das pessoas e desvalorização das “coisas”! 😍
    Beijinhos meus lindos

  4. Concordo com tudo! Especialmente a parte das conversas familiares “A Maria vai fazer casa”. Há arestas que ainda temos que alisar aos nossos pais 🙈

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