Filipinas, vem de Filipe, o segundo, rei no trono de Espanha aquando a “descoberta” deste paraíso tropical na terra. Formada por 7107 ilhas, onde cerca de 2000 estão habitadas, as 11 maiores representam 90% da área total do país, cujo número de habitantes vai para lá de 104 milhões.

O arquipélago está dividido em três grandes grupos, sendo o norte o mais visitado e o sul menos recomendado, por alguns problemas de carácter político e religioso.

Fazer um roteiro de 21 dias para tanta ilha foi tarefa árdua. Seguindo o mote “menos é mais”, e percebendo que mais uma vez os transportes são caros e muito demorados (aqui apenas de avião ou barco), optámos por apenas visitar três ilhas (e outras tantas pequeninas num tour) no grupo central, Visayas.
Não é o mais turístico e isso notou-se durante toda a nossa estadia por cá.

Entre colonização espanhola, dominação americana, guerras por independência, aliados contra o Japão, nós vimo-nos gregos para cá chegar.

Trocas e atrasos nos voos, cansados de Bangkok – que pode ter tanto de fascinante como de esgotante – escalas, e trinta por uma linha, quando acabámos de aterrar, percebemos que não estávamos no aeroporto de Bohol mas em Panglao, uma pequena ilha que tem ligação a esta, por terra.
Sem querer acertamos, pois estávamos a menos de 5 km do Hostel. Que maravilha!
Poucos quilómetros e sem autocarros naquela direcção pusemo-nos a pé. Chamaram-nos de doidos, ofereceram-nos serviços naqueles triciclos coloridos novidade para nós, e táxis a balúrdios, que como recém-chegados e sem forma de conseguir comparação de preço nunca aceitamos.
Esticámos o braço, o primeiro carro parou. Um senhor super simpático, fez desvio para levar-nos à porta do Coco Farm, mas estando a localização errada no maps.me ainda deu para uma caminhada de baixo de chuva que veio para nos abençoar e refrescar.

O Hostel, composto por bungalows envoltos em vegetação, muito simples mas muito agradável foi a nossa casa nos seguintes 5 dias. Inicialmente íamos ficar apenas um.
Esse meio dia da chegada, não deu para muito. Comer, tomar um banho e dormir era tudo o que queríamos e foi o que fizemos.

Na manhã seguinte a chuva parecia não dar tréguas, mas aqui é água vem, água vai e a coisa acalmou. Foi assim durante todo o tempo nas Filipinas, passámos de tostados a pintainhos molhados em menos de um minuto.

Saímos para caminhar pelas redondezas e perceber se havia necessidade de alugar moto, ou se andar a pé e de transportes era suficiente.
Era Domingo, a praia mais próxima estava cheia de filipinos a fazer os seus Pick-nick, jogos e karaoke. Percebemos, rapidamente que não é comum andarem por ali muitos estrangeiros porque fomos alvos de sorrisos, estranheza e brincadeira.

A praia, uma daquelas que não está em roteiro nenhum, tinha o mar mais límpido que os nossos olhos viram (10 a 0 á Tailândia). Maré super rasa, onde para a água chegar aos joelhos temos de caminhar mar a dentro mais de 500 metros, e muita vida e cor: estrelas, ouriços, peixes e espécies que não sabemos identificar.
Os barcos parados ao longo da costa eram distintos, super estreitos com canas de bambu a proporcionar-lhes a estabilidade que lhes parece faltar, de cada um dos lados.
As mulheres, como já vem sendo comum para estes lados, banham-se vestidas.

Nesse dia comprámos para o almoço frango assado, batatas fritas, pão doce, uma litrosa e bolos.
Ó tempo que não comíamos frango assado e os nossos olhos brilharam, não sabíamos nós que ia ser a base da alimentação dos próximos 20 dias.
Estávamos super felizes de ver montes de pastelarias com bolos a preços muito simpáticos, de 0.05 a 0.15€ e enchemos a barriga. Não sabíamos nós também, que ia ser a base dos nossos pequenos-almoços e lanches todos os dias.

 

Igrejas, capelas e capelinhas em todas as esquinas, com missa e fiéis porque era Domingo.

Acabaram-se os templos, agora “God is the way” está escrito em todo o lado.

Fernão Magalhães, o Rei Filipe e seus comparsas, introduziram – não querendo dizer, implementaram com alguma obrigatoriedade – o cristianismo, durante os três séculos de colonização. É o único país do continente Asiático com maioria cristã.
Em 2015, na capital Manila, numa missa celebrada pelo Papa Francisco atingiu o recorde até à data, de 6 milhões de fiéis.
A religião está representada em todo o lado, desde imagens, a frases da Bíblia escritas em todos os triciclos (espécie de tuc-tuc), como bom presságio, na casa das pessoas, restaurantes…
Em contrapartida ninguém conhece o país do Cristiano Ronaldo, nem o mesmo. Aqui o desporto rei é o basquetebol, e Portugal continua a ser Espanha.

Muitas palavras do vocabulário Tanglog, a língua oficial do país, são em espanhol. No entanto, avisos de estradas, sinais, e anúncios estão representados em Inglês, sendo esta a segunda língua oficial.
No total, há mais de 100 dialectos distribuídos pelas várias zonas do imenso país.

A facilidade de comunicação quebra barreiras e neste dia, quando continuávamos a nossa caminhada fomos convidados a juntar-nos a um grupo em frente a um minimercado.
É comum as pessoas socializarem nos bancos e mesas improvisados á frente destas lojinhas a conversar e a beber. O conceito de café, por cá é assim.
Aceitámos, e depois de muita conversa e rum acabámos de forma imprevisível a assistir a uma luta de galos.
Montados os três na motorizada lá fomos por um caminho de terra batida, mato a dentro onde demos com um descampado entre as palmeiras onde já estavam reunidos um grupo de homens, miúdos e muitos galos.
Há ringue e locais para o efeito, mas parece que por todo o país se desenvolvem muitas vezes destas lutas ilegais.
Estes galináceos têm um aspecto luzidio e cuidado, como se de um cãezinhos se tratassem. Há quem lhes dê doping para os tornar mais fortes e trinta por uma linha.

Eu era a única mulher, e quando perguntámos porquê, parece que é coisa demais para as senhoras. Para além de que, alguém tem de estar preparado para cozinhar o galo depois da sua gloriosa morte.

Havia mais dois estrangeiros, que já vivem nas Filipinas à alguns anos, mas maçaricos éramos os únicos e levámos tempo a perceber como o “match”, o combate e as apostas se processam.
Fomos convidados a apostar, e para não fazer a desfeita investimos 100 pesos (1.60€). A nossa aposta morreu logo na primeira facada. Mal empregue dinheiro.
Ingenuamente, e seguindo a lógica do que vimos pelas ruas do Vietname, achamos que os galos iam lutar durante algum tempo e depois ganhava o menos depenado ou outro critério que não envolvesse a morte do animal.

Aqui é à séria! São colocadas pequenas lâminas afiadas na parte de trás de uma das patas, para quando os galos saltam um sobre o outro se esfaquearem.
É tudo super rápido, basta um golpe bem deferido para terminar com a brincadeira.
Ganha o que se mantiver mais tempo em pé.

Assistimos a três lutas, e pareceu-nos suficiente para o resto das nossas vidas.
Na nossa opinião, não é uma coisa bonita de se ver, mas foi uma parte diferente e única que vivemos desta cultura, de uma forma bastante inesperada.

Durante os dias seguintes em Panglao, conhecemos um grupo brutal de quatro amigos portugueses, fizemos um tour com eles, nadamos com tartarugas em habitat natural, fizemos snorkeling num coral lindo, e ficámos surpreendidos a cada passo que dávamos por este pedacinho de terra.
Alona Beach, a praia mais famosa, carregada de turistas e de lojas de souvenirs, muito ao estilo Sul da Tailândia, não surpreendeu, mas os arredores deixaram-nos apaixonados.

Apanhámos boleias de mota dos nossos amigos portugueses, andámos várias vezes em Jeepneys, uns autocarros mega coloridos típicos das Filipinas, atolados de gente e muito baratos, e nos últimos dias alugámos mota para desbravar Bohol, a ilha maior ali do lado.

 

Bohol, contrariamente a Panglao não tem praia e é conhecida essencialmente pelos Chocolate Hills, mais de 1000 montes que surgem ao longo de uma mega planície. Durante a época seca, que não é o caso, devido á sua coloração castanha, ficaram com este nome apetitoso. Não há uma explicação sólida para estas protuberâncias na terra, mas nós cremos que foram os extraterrestres, óbvio. 

 

Com mais cinco dias por aqui, tivemos tempo de conduzir sem rumo entre arrozais, palmeiras, bananeiras, e muito verde contrastando com o azul do mar. 

Andar a pé e de moto por estas estradas é algo absolutamente fantástico e libertador.
Tal como nos outros países, também se paga para deixar moto e para visitar muito dos locais. Nas cascatas, que parecem ser exploradas por famílias, o preço é simbólico e explorar umas quantas foi outra das nossas actividades preferidas.

Cada cascata era mais bonita que a outra. Chegámos a ter quedas de água limpa e maravilhosas só para nós, como nos filmes. Os trilhos de algumas eram feitos entre pequenas aldeias de casas de bambu, madeira, outras tantas de tijolo. Caminhos de terra e estradas recém-construídas de cimento, muitos coqueiros e vegetação.
Por perto, riachos de água límpida onde as pessoas se banham e lavam a roupa no rio. Impressionante, pois mesmo quando sentimos que estamos a invadir de alguma forma a sua privacidade, ficam sempre felizes e curiosas à nossa passagem, sorriem, acenam e agradecem por estar ali a visitar determinado lugar e a contribuir para a sua subsistência.

No nosso tempo de permanência nas Filipinas, e apesar de termos visitado apenas três grandes ilhas, percebemos que apesar da rigidez de algumas leis, como a pena de morte para roubo e venda de estupefacientes, o Governo está também preocupado em reduzir o consumo de plástico e conservar a natureza e tem algumas medidas igualmente radicais nesse sentido.

Em Bohol tivemos o prazer de passar numa floresta plantada pelo homem como forma de combate à desflorestação.

 

Paragem obrigatória, foi também um santuário de társios, os primatas mais pequenos do planeta. Somente com 15 centímetros, devido á destruição do seu habitat, predadores naturais e gatos domésticos, assim como à sua captura para servirem de animais de estimação, estão actualmente em vias de extinção. Esta ilha, é o único lugar do mundo onde estão a conseguir inverter a situação.
Sendo uma espécie noctívaga, ficamos muito felizes de poder observar meia dúzia de exemplares, que curiosamente e bem, se estiver em jaulas comete o suicídio.

A alimentação à base de carnes, foi muito deficiente para nós, e sendo uma zona pouco turística, havia poucas alternativas. Para quem evita ser carnívoro constante e nos últimos meses tem comido muito vegetariano, a coisa foi dura.
A base continua a ser o arroz, mas os vegetais devem ter acesso proibido nas ilhas. Frango frito, com frango assado, espetadas de porco, frango frito mais frango frito e um bocadinho de frango assado foi o que comemos nestes dias. É óbvio que há outras opções mas muito mais caras e nós tentamos comer sempre o local e mais acessível, por sinal.

Nestes dias e pela primeira vez, fomos mandados parar pela polícia mais simpática do mundo, fomos enganados num hostel, nunca houve água quente, mesmo nas noites mais frescas, no entanto entradas destas num país, é mais de meio caminho andando para tudo correr bem.
E mesmo quando não corre, levarmos tudo levianamente com um sorriso nos lábios.

Filipinas apesar da chuva, e do frango assado foi generosa connosco e o seu povo surpreendentemente encantador.
O paraíso dos paraísos ainda estava para vir…

Com amor,
Marta & Bagagem

27 de Janeiro de 2019

Ao som de The XX – Islands

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