Apanhámos o ferry para Cebu, o único destes 21 dias de viagem. Cerca de quatro horas e 10 dias depois, lá estávamos naquela que é considerada uma rotunda das Filipinas.
A maior parte dos turistas que por ali passam é com o objectivo de utilizar o aeroporto ou ir a alguns dos poucos interesses da ilha. Nadar com os tubarões baleia é um chamariz de gente, na cidade de Oslob, mas depois de muita pesquisa, e tal como os elefantes na Tailândia não nos pareceu ser responsável fechar os olhos à vontade cega do ser humano de fazer dinheiro, ignorando questões éticas e fulcrais, como o bem-estar dos animais.

O resto da ilha, que alberga cerca de 4 milhões de habitantes não sabemos como é, mas a cidade é muito suja. Foi o lugar no sudeste asiático onde vimos mais sem abrigos e até pessoas com demência a pedir e a comer dos caixotes do lixo. Atenção que pode não ser, de todo, o país onde já estivemos onde seja maior o número de sem abrigos e pessoas a viver no limiar da pobreza, mas foi sem dúvida o lugar onde nos apercebemos mais desta realidade.

Cebu City, pela sobrepopulação, pobreza, sujidade e desorganização é chamada várias vezes de “pequena Manila”. Em contrapartida, coisa que não falta por lá são shoppings e igrejas.

Decidimos caminhar pela zona central da cidade, que à excepção do Forte de São Pedro e a catedral à pinha com fiéis, não se revelou muito bonita.

Muita gente nas ruas a vender e a comprar, mas ainda mais gente nos shoppings. O parque da cidade estava à pinha de jovens a namorar, a fazer as suas coreografias de dança – actividade tão apreciada quanto o basquetebol.

Os campos estavam repletos de jogadores, o típico karaoke em toda e qualquer esquina, skaters, e tudo o que uma cidade grande pode albergar.
Era Domingo e nisso os Filipinos não perdoam, são povo de festa, convívio, são um povo crente. Mesmo numa cidade grande continuam a ser amigáveis e curiosos.
Nessa noite soubemos de um conterrâneo, o Mars, que se encontrava com mais dois amigos portugueses num hostel ali ao lado. Conversa e festa garantida, e a certeza que o mundo não passa de uma ervilha.

 

No dia seguinte voávamos, ainda sem saber, para o lugar mais bonito onde estivemos em toda a nossa vida.
Sim! A insistência em conhecer este pedaço de terra conhecido por alguns como o paraíso do surf, e o preço dos voos, comprados em cima do joelho tinham de valer a pena.
E valeram tanto a pena!

Numa avioneta seguimos caminho. Lá de cima, vislumbramos a quantidade de ilhas, que por mais pequenas que sejam albergam humanos. A cor da água é azul de várias tonalidades, a imensidão do mar, vegetação e tanta beleza, só nos fizeram crer que apesar do investimento, estar ali era facto, onde deveríamos estar naquele momento.
A aterragem foi qualquer coisa de assustador, mas já com os pés em terra firme e a tentar perceber como é que as coisas funcionavam ali, alugar mota logo à saída do aeroporto foi sem dúvida a melhor opção.

Siargao tem cerca de 200 mil habitantes (as informações não são concretas) , uma estrada circular e uma outra que a atravessa a meio, em cimento. Todas as pequenas ruelas dentro de localidades são em pedra, terra e lama.

A concepção de cidade aqui é a de uma pequena aldeia de Portugal, e General Luna é a maior. Um brutal contraste, tendo em conta que Manila, a capital é das cidades mais densamente populosas do mundo.
Não há shoppings, hipermercados, grandes zonas comerciais. Os minimercados têm o básico, há um mercado com meia dúzia de peças de roupa. Os restaurantes são no geral bastante simples.
General Luna, já começa a ter coisas vegan e sumos naturais esquisitos, umas lojas de roupa extremamente caras e umas quantas de aluguer e venda de pranchas. Hosteis e resorts a ser construídos ao pontapé que muito dificilmente ficarão lotados, mesmo em época alta.
Devido a isto, os habitantes, travaram não há muito tempo, a construção de uma estrada que iria ligar vários resorts, com o intuito de manter a privacidade de algumas localidades ao redor.

Há uma Igreja em cada “esquina”, e os postos de combustível são compostos por garrafas daquilo que já foi Coca-cola.
As paisagens são essencialmente compostas por coqueiros, arrozais, vacas e praias desertas de água clara.

A concepção de paraíso que criámos no nosso imaginário, estava ali. Só para nós. 

É comum conduzirmos quilómetros sem nos cruzar com um estrangeiro e ter praias de postal absolutamente vazias.

Há zonas onde a água é puxada com uma bomba manual e onde não há internet nem qualquer comunicação.
É comum acordar cedo com o cantar dos galos, deitar ainda mais cedo porque está tudo fechado.
As pessoas são hospitaleiras, generosas, sorridentes e afáveis, tal como os outros sítios das Filipinas nos habituaram.

 

Surfar nos mesmos spots, comer no mesmo tasco… Ir aos mesmos lugares vários dias seguidos, dá-nos a conhecer as pessoas de uma forma mais profunda. Ficamos sempre curiosos com realidades diferentes da nossa, assim como o outro lado fica curioso com a nossa presença ali.

Foi o lugar onde tivemos mais descontraídos até ao momento, sem pressa de visitar, sem correria de transportes, sem nada e com tudo ao mesmo tempo. 

Conhecemos um miúdo, que não vai á escola porque surfa horas contínuas para ser o melhor. Um garoto, que afinal nasceu no corpo de uma miúda e que sonha um dia ser um homem.

O Beto, que explora uma espécie de tasco numa praia de surfistas, tem 19 anos, vai ser pai e quer terminar o curso de mecânico, só não sabe quando a vida lho vai permitir. Adorava mudar-se para uma grande cidade, não imagina ele a sorte que tem de viver no paraíso.

O Joe e o primo, que passam os seus dias entre apanhar ondas, comer, fumar e beber. Alugam umas pranchas, dão umas aulas e assim ganham a vida.

Os horários de trabalho para a maioria são flexíveis e não vimos aquela sede profunda de produzir mais, trabalhar mais para acumular riqueza ou viajar. Houve quem tivesse de tirar o dia para “lavar a roupa”, leia-se.

 

Apesar das casas de madeira e telhado em chapa, o facto de se deslocarem de mota/bicicleta, o andar descalço e pescar para comer, são donos de uma qualidade de vida incrível. 

No norte da pequena ilha, comemos melhor e livrámo-nos, por uns dias do frango frito e frango assado.

 

Dissemos “Olá” dezenas de vezes ao dia e espalhámos “mais cinco” a todos os que esticaram a mão. Houve uma vez que, com tanto entusiamo dos miúdos, quase fomos abalroados da moto. Fomos convidados a sentar à mesa, a entrar na casa desta gente.

Para além de beleza infita este lugar é casa de pessoas muito amáveis.

 

Foram dias muito felizes entre surfadas, tentativas de surfar, copos e concertos com locais, muita conversa, e partilha.
Grutas, lagoas, praias, rios de água limpa, coqueiros, cães, animais a deambular pela estrada e passeios de mota. Sorrisos, centenas de sorrisos.

A vida é simples, há tempo, não há correrias, há gente simples e bem disposta, e nós fomos muito felizes aqui.

Siargao, a pequena ilha que descobrimos por puro acaso e a sua gente ficou no nosso coração.

Inicialmente, pensámos que sete dias seria imenso tempo aqui. Agora a chegar ao fim, dávamos tudo para estender a nossa estadia. No entanto, temos o feeling que se escolhessemos outra das 7000 o sentimento seria o mesmo.

 

Sem querer sair da ilha,

Com amor,
Marta e Bag

4 de Fevereiro de 2019
Ao som de Led Zeppelin – Stairway to Heaven

One Reply to “Siargao – O Paraíso existe”

  1. É caso para dizer “quero voltar para a ilha”.
    Que qualidade de vida sem dúvida. E nós aqui todos os dias a correr contra o tempo para no fim de contas olhares para trás e pensares que o tempo passa e tu, nesse tempo te limitas a fazer o que a sociedade te obriga. Vives sobre pressão e objetivos da caca. VIVER que é bom…. 15 dias em 365 😂.
    Mais uma vez gabo-vos a coragem de partir nesta aventura que é o saber viver.
    Parabéns. Obrigada por todas estas partilhas. Keep going e livrem-se das bichezas 😁

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *