Quando entramos com o pé direito num país, tem tudo para correr bem. Quando somos “roubados” pela caixa de ATM no aeroporto, e nos tentam enganar nos minutos seguintes no supermercado, tem tudo para correr mal.
E cá estou, um mês depois da nossa épica chegada, a escrever este texto e a achar que sei do que falo.
Não sou supersticiosa, nem o Bagagem, mas que há bruxas, há. Logo falamos sobre o assunto.

Bali se calhar nem estava nos planos, não sabemos bem, mas depressa se tornou parte deles. Aconteceu quando um casal amigo que fizemos no nosso Workway na quinta da Tailândia, nos falou deste brutal lugar para ficar em troca de umas simples tarefas. A Clem e o Frank tiveram conhecimento dele através do Helpfix – outra plataforma de troca de trabalho por alojamento.
Enviamos email à Kelly, a proprietária do paraíso, mantivemos contacto durante alguns meses, na tentativa de encontrar uma data que fosse conveniente com a nossa volta e onde ela tivesse espaço para nos receber – é um lugar concorrido e já vão perceber porquê – e mais tarde, lá para Dezembro, ultimamos pormenores da nossa chegada e compramos o voo das Filipinas para cá.

Bali é conhecido pelas suas boas praias, boas ondas, cultura única e gente acolhedora.
Porque não? Dois meses parecia muito, era o requisito e aqui o surfista nem deu opção de recusar.

Sendo o maior arquipélago do mundo, atravessa vários continentes e tem 17508 ilhas. Seriam precisos bem mais do que dois meses para conhecer esta imensidão de mundo.
É também a maior economia do sudoeste asiático e um país carregado de lixo e a precisar de mudanças drásticas.
Bali, é apenas uma das 8000 ilhas habitadas da Indonésia.
Dá para imaginar as correntes de influências dos países vizinhos, dos colonizadores – onde é óbvio Portugal teve de meter o bedelho – a diversidade cultural, de paisagens, clima, animais? São mais de 300 idiomas, muitas religiões e uma riqueza infinita de cultura.Com 270 milhões de habitantes, a maioria da população é muçulmana. Surpreendentemente, é o país com mais muçulmanos no mundo.

No entanto em Bali, nesta ilha pequenina com cerca de 4000 habitantes, a maioria é hindu, perfazendo um total de mais de 80% da população.
Não é como o hinduísmo indiano, pois é uma corrente religiosa que tem influências também no budismo e no animismo – crença que qualquer matéria pode conter bons ou maus espíritos, uma pedra, árvore, um tecido, qualquer coisa. Por este motivo um lugar com templos, costumes, tradições diferentes de tudo o que vimos e podemos ver até agora.

Quando um sitio é muito turístico é porque teve motivos para o ser. Isso pode quebrar a mística e grande parte das vezes, destruir os locais com tamanhas construções e ocidentalidade.
Aqui, com toda a certeza a beleza natural foi importante para o seu estrelato, mas pessoas e cultura única estão a par com esse critério.

Bali, também é aquilo que se ouve falar. Desde os restaurantes vegan, muesli, abacate, soja e coisas saudáveis, #healthylife, praias, surf, retiros espirituais, yoga, “clubs”, vida de sonho a preços acessíveis.
No entanto, talvez por ser época da chuvas e consequentemente época baixa não tropeçamos em turistas aos molhos, como todos nos diziam. Ou então, temos fugido dos locais onde eles se concentram.

 

A casa onde estamos é saída de um catálogo, e quando chegámos não quisemos acreditar no que os nossos olhos viram.
Um estúdio, com todo o requinte e condições seria a nossa casa dos próximos dois meses. Aquilo que sempre sonhamos, um open space no meio da natureza, simples, de madeira. Wow!
Uma casa de banho só para nós, chuveiro na rua com água quente, zona de estar. Até toalhas dobradas com uma flor tínhamos aos pés da cama.
Depois de 5 meses a saltar de hostel em hostel, às vezes com condições de “devíamos ter dado mais dois euros, podia ser que fosse melhor”, isto é tipo, WOW WOW WOW!

A Villa é composta por uma Guesthouse com três quartos, uma casa de banho, uma lavandaria, cozinha e sala onde estão os nossos colegas de workaway e com quem podemos partilhar as áreas comum.
Ainda há a casa dos proprietários que agora é a habitação de dois gatos, outro estúdio com casa de banho e zona de estar própria para receber mais pessoas.
Na zona da piscina, há uma cozinha, uma sala exterior e uma casa de banho.
Todo este espaço envolto em vegetação, em harmonia com a natureza. Com decoração de um bom gosto incrível, super bem cuidado, nem uma folha ou planta fora do lugar.
Estávamos pasmados e um mês depois ainda ficamos! É tudo tão bonito, tudo pensado ao pormenor, tão limpo, organizado.
Não vamos conhecer a Kelly e o marido no tempo de permanência por cá.

Nesta imensidão de jardins e instalações há: 11 galinhas, 4 cães, dois gatos, esquilos, caracóis cheios de testosterona, aranhas, cobras, sinfonias de sapo à noite, morcegos, e coisas que ainda vamos descobrindo.
As nossas tarefas consistem em alimentar os gatos, galinhas e cães, verificar os tanques, se os funcionários vêm e fazem o que lhes compete, resolver algum problema nas instalações que possa surgir, pagar contas entre outras pequenas coisas.
A Ayu é a vizinha, e vem durante a semana fazer a limpeza das áreas comuns, jardim, preparar os quartos para eventuais chegadas de colegas novos. O Pak Swui e a esposa vêm ao fim de semana e cuidam essencialmente dos jardins. O Nur vem duas vezes por semana e faz a manutenção da piscina.
Nos dias de trabalho acordámos à 6.15 da manhã para abrir a porta às galinhas, alimentá-las e fazer o resto das tarefas. Por volta das 7.30h estamos livres, à excepção dos dias em que vem o senhor da piscina ou há outro qualquer assunto para tratar. Retomamos com um passeio à tarde com os cães às 16.30h, galinhas, gatos, tanques e por volta das 18.30h estamos livres.

Em média trabalhamos quatro dias e temos três de folga, que podemos trocar com os colegas de casa. Temos um calendário mensal que é bastante flexível.

Apesar de ser um trabalho que não deve ser chamado de tal, por ser tão simples e prazeroso, os horários são rígidos e temos de reportar num grupo de Whatsapp todos os movimentos, onde está a Kelly e todos os elementos da casa.
Em troca destas condições, o mínimo que podemos fazer é cumprir com rigor o que nos é pedido.

A Villa está localizada numa zona recatada, silenciosa e bastante central da pequena península a sul.
Ungasan é o nome, estamos a cerca de 10 Km para sul, este ou oeste de qualquer praia, a 15 Km do aeroporto, a 20 Km da zona mais turística.
Perfeito!
Os preços da comida são super acessíveis e a grande maioria dos habitante locais.
Estamos afastados quatro quilómetros de todos os serviços, entre estradas e estradinhas labirínticas, que pensámos nunca conseguir decorar e na primeira semana fizemos sempre com ajuda do GPS.
Para que tenham uma ideia, para fazer 5 Km de mota nestas estradas, que não têm trânsito, demoramos cerca de 20 minutos, a andar bem.

Já na zona da estrada principal, o trânsito é caótico e um contraste brutal com estes quatro quilómetros que fazemos todos os dias até casa.
Para cá chegar, passamos pelos típicos e pequenos mini mercados, o lixo, as dezenas de cães, ruas esburacadas, os postos de combustível manuais, casas, casinhas e bairros muito desorganizados. Vacas a pastar, verde muito verde e templos.
Bali nisto, deveria ganhar o prémio de pior ordenamento do território. As curvas fazem ângulos de 90°, e muitas das estradas não têm saída.

Nos dias que temos de estar por perto exploramos os arredores, nas folgas planeámos explorar outras partes da ilha e talvez outras ilhas próximas.
Mas planos saem furados e Bali está a testar a nossa resiliência.

 

Um mês depois os nossos colegas de casa já se tornam amigos, visitámos muito menos do que planeámos por causa de um fungo que afinal é bactéria, mas estamos felizes por nos sentir em casa.

 

Cheia de comichão e cheio da comichosa,

Com amor,

Marta & Bag

6 de Março de 2019

Ao som de Rolling Stones – Painting it black

 

One Reply to “Bem-vindos a Bali!”

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