A nossa história em Bali poderia ser contada numa linha, assim:

Tudo lindo, felicidade extrema, “a merda”, outra merda, ou é só mais uma, fim.

Estes foram os meus desabafos no bloco de notas do telefone, da minha luta contra uma coisa que ainda não tem nome, mas que lhe chamei “a merda”. Foram quase dois meses de doenças, alergias, infecções, diarreias, arroz com arroz, que para minha fragilidade ainda não terminaram por completo.
Foi momento de quase mandar a toalha ao chão, foi momento de repensar o trajecto, de muita coisa.
Foram dois meses sofridos e intensos.
Também foram meses de boas gargalhadas porque mesmo com “a merda” posso dizer que fui feliz aqui.
Foram dois meses em que o Bag namorou com uma 6.0 (prancha de surf) e que apanhou brutais ondas. Eu não vi, estava em casa empenhada em coçar-me ou ficar sentada no trono real.

 

14 de Fevereiro

Ontem quando saí do mar, na Bingin Beach comecei com comichão fora do normal. Não liguei, era o nosso dia de folga. Fomos visitar o templo em Uluwatu, vimos aqueles malditos macacos todos, a Fire Dance e jantámos pelos arredores.
Mal cheguei tomei um duche e fiquei aliviada. Não deve ser nada, fiz a depilação ontem e pode ser disso.

 

15 de Fevereiro

Aparecerem-me montes de borbulhas na zona do biquíni. Dá comichão de morte.
Falo com umas amigas (muito pacientes) da área da saúde, dizem que é provavelmente um fungo. Na farmácia confirmam e dão-me um anti fúngico e uma pomada.

(…)

 

26 de Fevereiro

Hoje só me apetece chorar, já esgotei as opções de medicamentos, já esgotei a carteira, as horas na cama sem dormir.
Já esgotei a paciência ao Bag, o amor que não lhe tenho dado.
(Parece que ainda não tinha esgotado).
Não dói, mas incomoda e incomoda muito.
É uma comichão sem precedentes em toda a zona da pélvis, muitas borbulhas que surgem gradualmente.
Os amigos da área da saúde bem tentam ajudar, mas as fotos são insuficientes para fazer uma avaliação correcta da situação.

Mantive-me positiva e bem disposta até aqui, afinal de contas é “só um fungo”. Uma coisa invisível que se manifesta bem visivelmente na minha pele.

O que me aborrece e deixa frustrada, é que a esta altura já teríamos desbravado os arredores. Tínhamos planos de visitar outras ilhas que porventura não se vão concretizar.
Não vamos só para ir, vamos para desfrutar, absorver, e se o tempo nos parece escasso, ficaremos “apenas” por Bali.
Apesar de todo o transtorno que me causa, percebo que sou uma sortuda por não estar em movimento, ter uma casa só para nós, dois meses neste lugar fantástico, todas as condições de higiene e um espaço gigante onde não me sinto “presa”.
Estar nesta condição de hostel em hostel, quartos partilhados, com higiene deficiente seria pior, muito pior.
Pior seria ainda, se fosse em todo o corpo, ou alastra-se.
Pior seria, uma doença grave.
Pior seria, um acidente de moto. Partir uma perna. Perder alguém.
Sei lá, pior seria tanta coisa.
Mentalizo-me disso, pior é, pior seria…
Mas ter dezenas de borbulhas nesta zona, e comichão contínua é a minha sina agora, e é dela que me queixo.
Se fosse melhorando a olhos vistos, mas não.
Ainda assim todos os dias digo: amanhã vou estar melhor.
Porra, ainda não foi esta manhã.

Já vou em quatro pomadas, um antibiótico, anti fúngico, óleos naturais, uma consulta de hospital. 321 anti-histamínicos que não resultam em nada. Um seguro que me está a falhar. Sessões de reiki com a minha colega de casa e trinta por uma linha.

 

1 de Março

Foi mais uma noite sem dormir. Só estou bem de baixo do chuveiro, dentro de água ou a fazer gelo. Acordo de uma em uma hora, há noites onde não prego olho.
Á cerca de 16 dias, uma ida ao hospital, mais de 100€ depois, um seguro que não cobre por alma “as seguradoras só servem para chupar”, muitos nervos e frustração, algumas borbulhas já foram desaparecendo.

No meio disto, o Bag já teve uma otite e já a curou.
A minha colega de casa teve uma bactéria no sangue que a deixou de cama e lá a vai curando.
Já fui três vezes ao departamento de emigração tratar do visto e isto ainda continua.
Não há memória até agora que não envolva comichão e desconforto.

 

3 de Março

Olha, mas afinal não é um fungo, é uma bactéria ou coisa que o valha. Um ácaro. Herpes?
Uma merda. Isso eu sei que é.
“Continua os anti-histamínicos, mas precisas de outro antibiótico”.

Fixe, o que tenho não é suficiente tem de ser dose redobrada que esta porcaria está a resistir. Entre pomadas, óleos essenciais, uma infecção vaginal e outra carga de antibiótico, dores de estômago, um multi-vitamínico, o valor já ultrapassa os 200€ e a situação não está resolvida.

As duas caixas de anti-histamínicos que trouxe, dei cabo delas com as pragas de bed bugs que sofri. Uma “tablet” desses singelos comprimidos por cá custa cerca de 6€, um antibiótico não se fala. Pomadas com cortisona um balúrdio.
O Bagagem, o meu pai e o meu irmão, as únicas pessoas da família que sabem da situação para não criar alarmes, dizem “não te preocupes com o dinheiro, resolve isso”.
Tudo muito bem, não podia estar mais de acordo, mas será que conseguem imaginar a frustração de quem está a viajar á 6 meses a cumprir um budget e a fazer muitas ginásticas para não o ultrapassar.
Gastar 200€ do pé para a mão é tão triste. Mais triste quando não se vêm melhorias e a situação de desconforto é contínua e parece não melhorar.

 

5 de Março

Não me sinto melhor, mas os Twopackers chegaram e fomos com eles até Ubud, onde inicialmente íamos ficar uma noite para explorar arredores.
Para além de todo o desconforto causado pelo minha comichão, tínhamos bed bugs no quarto. Apenas no nosso quarto.
Outro balde de água fria. Escolhemos um Hostel “melhor”, verificamos camas antes e às onze da noite quando estamos para ir dormir dou por mim cheia de comichão e picadas, e lá estavam eles à minha volta.
Sou mesmo apetitosa ou a pessoa mais azarada do planeta?
Não pensamos nem uma vez, pegámos nas coisas de lágrimas nos olhos, dissemos à Ju e ao Maikel que íamos seguir para casa e conduzimos durante 50 quilómetros. Mal chegámos pusemos tudo para lavar, tomamos um banho, entrámos na cama, demos graças por ter um porto seguro mas não conseguimos dizer uma palavra um ao outro de tão inacreditável que estava a ser o nosso azar.

Nesse dia, cheia de uma fé que não tenho, fiz um ritual de purificação nas águas sagradas do Tirta Empul Temple.
Valeu de muito.

 

6 de Março

“Desculpa amor”.
“A culpa não é tua. Amanhã vais estar melhor! “

Já tive várias vezes a prova que o meu corpo não tem pedalada para mim. Até o meu pai diz, “Nasceste no corpo errado”.
Mas não tenho outro, este é a minha casa, vou cuidar dele o melhor que posso é mostrar-lhe que quem manda sou eu.

Era só o que faltava, florzinha de estufa.

 

10 de Março

Já vamos em 25 dias! Fico animada num dia, no outro é tanto comichão que desanimo.
As borbulhas secam, mudam de cor e forma, voltam a aparecer.
O comichão que não me deixa dormir, continua. E não dormir é uma tortura.

Fomos saindo, explorado com os Twopackers, é brutal partilhar Bali com eles, mas não estou bem em lado nenhum.
Que desconforto, que sufoco.
Vou só acabar este antibiótico, se não resultar vou outra vez ao hospital.

 

14 de Março
(1 mês)

Apesar de algumas borbulhas estarem a secar, o novo antibiótico não está a resolver, está a destruir-me por dentro. O meu estômago pede clemência.
Nos entretantos coço-me, tento dormir, não desistir.
Já ponderei voltar, como se isso apagasse estas borbulhas num minuto, como se isso não me fosse deixar com um travo amargo para sempre.

Um mês, o corpo não aguenta tanta medicação. Começaram as diarreias, dores de barriga lacerantes.
Voltei ao hospital. Já não quis saber.
Tratem-me. Não sei porque adiei tanto…
Quero dizer, sei. Porque era só um fungo, era só uma bactéria, era só mais este antibiótico, aquela pomada até ao fim. Porque falei com médicos de várias áreas em Portugal, enviei fotos e todos me disseram que com anti-histamínico e cortisona passava. A médica que me atendeu a primeira vez no hospital reforçou.

Vai resultar, dizia todos os dias para mim e até agora não resultou.

 

15 de Março

A dermatologista viu-me.
Levei, como se de uma idosa me tratasse, um saco com todos os medicamentos tomados até à data, pomadas, etc. Provavelmente se não o fizesse ela iria mandar-me de lá com mais uns anti-histaminicos e uma pomada qualquer. E afinal de contas mandou.
Pedi-lhe para não desvalorizar a situação, já não conseguia tomar mais nenhum comprimido nem passar nenhuma noite sem dormir. Falou em dermatite, foliculite, parasita.
Coisas novas que depois de tanta pesquisa e informação não me pareciam viáveis.
Não me transmitiu confiança.
Pedi-lhe análises ao sangue, parece que não são eficazes para problemas de pele. A biopsia também não se revelara uma coisa que clarificasse a 100%, por isso iria tentar esta nova pomada e acreditar.
Sai de lá a chorar, nada confiante, completamente angustiada pela proporção de umas “simples” borbulhas.

 

18 de Março de 2019

Já estou melhor, menos borbulhas significam menos comichão.
As duas últimas noites dormi sem gelo e sem acordar. Estou com energias mega recarregadas.
O estômago ainda não vai bem, mas vai a melhorar. Com picantes e fritos não é fácil, mas vou tentando ser muito selectiva no que como.

Visitamos finalmente Munduk, no norte, e subimos um vulcão. Deixou-me tão feliz.
Tenho o corpo fraco, estou cheia de marcas, e três borbulhas super activas, mas das dezenas que tinha, o panorama é muito positivo.
A minha aura ganhou outra cor!

 

20 de Março

Eu já sabia, mas quero reforçar: tenho o melhor namorado do mundo.
Não tem sido fácil para mim, mas também não é fácil para ele ver-me assim.

Para marcar os seis meses de viagem queria uma tatuagem. Só estava à espera de me sentir melhor.
Fiz a tatuagem, pintei o cabelo, estava nova. Depois de tanto dinheiro gasto em medicamentos e hospitais nem quis saber desta loucura.
É tudo à grande!

 

22 de Março

Quando pensava que tudo tinha acabado, voltaram a dores de estômago e dias de diarreia incontrolável. As dores são muitas. Passo os dias entre a casa de banho e o quarto. Fico frustrada, vou a baixo outra vez, estava a melhorar, queria aproveitar as últimas duas semanas aqui mas parece que a onda ruim veio para ficar.
Sinto-me mal pelo Bag, apesar de surfar todos os dias sei que queria sair para explorar mais. Eu mal saiu de casa, como arroz, bebo chá e muita água.
Já não sei o que dizer mais, o que pensar mais.
Mais medicamentos, protectores de estômago, imodium, uma espécie de canja…

Esperámos mais de um mês, para que ficasse boa para decidir novos destinos. Nos últimos dias compramos bilhetes de avião, fizemos rotas e roteiros.
Queremos mesmo continuar mas não vale mesmo a pena planear pois não?

 

24 de Março

Bali, porque estás a ser assim comigo?
Chorei mais vezes do que queria, quis voltar.
Gritei, barafustei, baixei os braços.
Eu só queria dormir. Eu só quero sentir-me saudável para seguir.
Tenho sempre em mente que amanhã será um dia melhor. Sempre em mente que o meu problema não é nada comparado a problemas gigantes de outros. Que tenho de me manter saudável mentalmente pois é meio caminho andado.
Que tenho de manter um sorriso nos lábios cada vez que falo com a família para não os preocupar.
Que estou num sitio lindo, ao qual chamo casa e que agora é o meu porto seguro.
Que tenho o melhor comigo.
Que em Portugal, na China ou em qualquer lugar do mundo podia ficar assim.
Fodasse, que esta merda vai passar.

 

26 de Março

Uma semana de diarreia é demais. Empurrada pelo Bag e pela malta de casa fui outra vez ao hospital.
Não imaginam a minha cara de pau e a cara daquela gente a ver-me lá outra vez. Ou pensam que sou hipocondríaca ou que não tenho mais que fazer ao tempo e ao dinheiro. Depois percebem que não tenho tido muita sorte e que há a probabilidade de ter um parasita a passear dentro de mim.
Faço três testes ao cocó. De todas as coisas incríveis que fiz nesta viagem, cagar para dentro de frascos nãos estava na lista.

Não há lombrigas por isso damos mais um antibiótico à miúda e isto passa.
Não há corpo que aguente, mas há Marta que tem de aguentar.

 

28 de Março

À família, está tudo bem! Agora está tudo bem.
Não vos queria, nem quero preocupar e daí não havia nada que pudessem fazer para me ajudar, “afinal de contas eram SÓ umas borbulhas”, era só uma “caganeira”.
Uma merda, “a merda”.

Também foi uma forma discreta de vos dizer que fiz uma tatuagem, que é como quem diz, três pequenas tatuagens e vocês não darem relevância nenhuma a isto, porque estive doente.

Entretanto também já mandei construir uma tombola de vidro para proteger aqui a princesa e o Bagagem já encomendou um fato de apicultura, não vá o diabo tecê-las.

Estou bem, a recuperar, a precisar de seguir para outro país, mudar…

Com amor,

Marta Frazão

Ao som de Florence + The Machine -Breath of life

One Reply to “A merda”

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