Explorar Bali levou tempo, os motivos foram claros. No entanto, entre dias melhores e piores, lá visitamos os lugares bonitos. Outras ilhas, deste gigante arquipélago vão ter de ficar para uma próxima viagem, porque Indonésia não é Bali.

Alugámos mota para os dois meses, a um preço muito simpático, e deste modo nunca precisamos de andar noutro meio de transporte por cá, com a excepção da ida e volta do aeroporto e dos barcos para as Nusas.
Houve dias onde fizemos mais 150 quilómetros. Diga-se que foi tarefa árdua para rabiosques e costas, mas que nos permite liberdade de horários e de parar onde queremos, sendo também muito económico. Findos os dois meses, percebemos que podíamos conduzir longas distâncias, dormir na mota, carregar mercearias, sacos de ração entre outras coisas, sem qualquer dificuldade, como se de asiáticos nos tratássemos.

As pessoas são simpáticas, afáveis e generosas. As paisagens são bonitas, algumas de cortar a respiração, e podemos dizer que é uma ilha bastante completa no que diz respeito a atracções naturais.
Desde a mística de Ubud, aos terraços de arroz, os templos tão diferentes de tudo o que vimos até então, às casas que parecem templos.
A Munduk no norte, onde a vegetação e as montanhas são donas de tudo e onde há cascatas absolutamente brutais em cada canto.
A Amed, uma pequena vila piscatória onde há uma imensidão de vida de baixo de água mesmo ali à beira, em redor de um navio afundado e muitos recifes.
À imponência dos vulcões, o negro da lava a contrastar com o verde.
Os lagos, lagoas, rios.
Às praias da península do sul, com escadarias infinitas, água clara, areia branca.
Às Nusas, três pequenas ilhas aqui ao lado cheias de spots saídos de filmes.
Ou Canggu e as suas praias de areia preta.

É também terra de uma cultura muito específica e tivemos oportunidade de presenciar a semana mais importante do ano para os balineses.
O ano novo!

Todos os anos, entre Março e Abril dependendo dos ciclos lunares, é festejado o ano novo Wuku.
Apesar de todos os dias nesta ilha serem de grande devoção, entrega de oferendas, gente com trajes típicos nos mais diversos afazeres, notamos ainda mais entrega nesta altura.
Templos cheios, gente a praticar coreografias à noite nos bairros, muitas flores, enfeites de bambu, cor e ainda mais oferendas, por todo o lado.
Fomos brindados pelas praias e locais de culto com várias procissões, de oferendas à cabeça e objectos religiosos, comparável às procissões que acontecem nas nossas aldeias. Desde miúdos a adultos, todos participam de sarong (saia), a peça de vestuário mais importante, que até as estátuas, árvores, pedras “usam”.

No dia da festa, fomos convidados a entrar numa casa típica, por uma senhora que se meteu connosco na rua cheia de orgulho e boa disposição. Assistimos ao ritual de purificação da família em primeira mão. Arroz na testa, água “benta”, linhas de lã e redor dos dedos e algumas rezas.
Nestas casas típicas, onde a entrada mais parece a de um templo, é comum viverem várias gerações.
Outra das características é terem um pequeno templo e este ficar na direcção do monte Agung – o maior vulcão de Bali, considerado sagrado para os crentes.

Nessa noite assistimos ao desfile dos “Ogoh Ogoh”, figuras gigantes construídas em grande parte de bambu, que simbolizam demónios. Originalidade não lhes falta e não percebemos porque é que todos os demónios têm mamas e unhas grandes.

Esta prática, de mãos dadas com o hinduísmo balinense, está envolta numa mística entre o bem e o mal e o equilíbrio entre estas duas forças e as figuras, a música e envolvência são representativas disso mesmo.
Todo o desfile, o enredo, o povo a puxar pelo seu grupo preferido, faz-nos lembrar os nossos desfiles de carnaval, que coincidentemente aconteceu na mesma altura, este ano.

No dia 7 de Março do nosso calendário, vivemos o Nyepi Day ou dia do silêncio.
Quando ouvimos falar pela primeira vez sobre isto, ficámos com a sensação de que não seria tão radical como nos descreveram, mas aproximada a data percebemos que é levado a cabo com bastante rigor.
Trata-se do primeiro dia do ano e são 24 horas de uma ilha completamente silenciosa e parada, onde ninguém, à excepção de polícia para o efeito, está autorizado a sair de casa. Não houve comunicações, e até aeroporto esteve fechado.
Os turistas são avisados dias antes e ficam retidos nos hotéis. Nada funciona e é proibido acender luzes, a não ser pequenas velas. Em muitos lugares as janelas são cobertas com sacos de plástico ou panos pretos para que a luz não passe para o lado de fora.

Os Balineses acreditam que depois do desfile, os demónios andam à solta pela ilha. Sem gente nas ruas, sem luz e barulho, estes crêem que a ilha está deserta e somem-se para outro lado.
É dia de jejum, meditação e introspecção para começar em pleno o ano que se avizinha.
Estamos em 1941.

 

O dia do silêncio, foi curiosamente dia de vento e chuva intensa, onde ficámos lá por casa com os nossos colegas e a Ju e o Maikel.

Durante quase duas semanas, as últimas de um ano de viagem deles (Grandes!), nos nossos dias livres aproveitamos para explorar arredores, conversar, rir, partilhar ideias, tagarelar e tagarelar.

Já nos nossos dias cá por casa, partilhámos muito tempo com a Tânia, uma alemã cheia de energia que nos contagiou no primeiro dia, e de quem sentimos muita falta quando foi embora. O Flô, carpinteiro francês que um dia ainda vai construir a nossa casa.

A Magalie,mais uma miúda que se despediu e veio viajar sozinha, sem saber falar uma palavra de inglês. Não há desculpas.

Nos entretantos, e a duas semanas de irmos embora, recebemos como um presente extra, a Emi e o Peter, com o Tiago (1 ano) e a Sultana (3anos).
Um casal de viajantes (já correram meio mundo), que se conheceu num surf camp em Espinho e que quatro anos mais tarde voltou lá para se casar – foram capa do Jornal de Notícias de 2015. A longa viagem com os miúdos vai passar por Portugal, um país do qual falam com um brilho nos olhos e quem sabe nos reencontraremos por lá.
Viajar com miúdos não nos pareceu fácil, mas depois disto, nada é impossível.

Para terminar em grande, recebemos a Steffi e o Paulo. Um casal alemão, onde o Paulo é filho de emigrantes de segunda geração portugueses, e que com o seu sotaque de Viseu nos fez rir e recordar o melhor do nosso país.

Sete meses depois do início desta viagem e depois da nossa primeira grande paragem, parece que estamos em casa, e vai custar deixar este bocadinho de paraíso que nos recebeu com uma casa de catálogo, bichezas e amigos.

Esperamos voltar, vingar Bali, conhecer a Kelly – a anfitriã – e dar mimos aos nossos meninos, Roxy, Jackie, Molly e Arti. Vamos ter saudades destas lambidelas e mau feitio.

Apesar de momentos de frustração, aflição e tristeza não conseguimos falar de Bali com mágoa.
O Bagagem fartou-se de surfar e chegou a partilhar ondas com tubarões. Vendeu a menina dele, entregamos a nossa motinha, abraçámos muito, despedimos da senhora do restaurante, do café, da mercearia… e agora é tempo de deixar coisas menos boas para trás, pôr mochila às costas e desbravar.
E não vale chorar.

Com amor,

Marta e Bag

30 de Março de 2019

Ao som de Marta Ren – So long

2 Replies to “Pedaço de terra único”

  1. tão comovida que também tenho os olhos brilhantes
    As coisas menos boas ajudam a apreciar ainda mais as boas.
    Momentos em movimento
    M arta & Bag
    O nde
    M undo
    E duca
    N ada
    T rava
    O lhos
    S oltos

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *