Malásia tem 32 milhões de habitantes, onde 60 % da população é muçulmana.
É para nós, o primeiro país de maioria islâmica e por isso um pouco diferente dos demais.
A religião, mais uma vez, consegue ser o ponto que melhor diferencia a cultura e costumes de um lugar, apesar de na Malásia, como iríamos observar depois, a multiculturalidade ser um factor predonimante.

Fazemos sempre uma lista das primeiras impressões de um país assim que passamos a fronteira, ou aterramos num aeroporto. Aqui, as coisas que nos saltam rapidamente à vista, são as mulheres de hijab e mais carros que motas a circular.

Sair de Bali, os dias na fantástica Singapura e a entrada num novo país deixaram-me super entusiasmada. No entanto, o corpo não queria dar-me descanso.
Desta feita, comichão no rabo. Não amigos, não é aquele comichão que nos faz coçar discretamente e tirar a cueca da gaveta. Era um comichão contínuo, que após uma semana de desconforto, cremes e pomadinhas só ficou resolvido com um anti-desparasitante.
Uma coisa super barata e simples, que pode evitar grandes problemas e deve ser feita de vez em quando, principalmente quando estamos em países onde as condições de higiene deixam um bocadinho a desejar.
Depois de em Bali ter feito tanto exame e tanta porra, o primeiro palpite do médico estava certo, ou então não. Sabemos lá.
Para além de bactéria levei com parasitas, já excluindo os da pele.
Sair da ilha onde nunca mais vou voltar, sem o pacote de maleitas completo é que não valeu.

Completa a experiência, “Viaje toda bexigosa”, acho que estou bem. Pelo menos sinto-me rija e sem vontade nenhuma de parar.
Por todas estas desavenças fisiológicas e emocionais, combinámos não planear absolutamente nada para a Malásia. Não que habitualmente tenhamos um roteiro mega definido, mas sabemos por alto, pelo menos o que não queremos perder.

Viemos até á fronteira de metro, como devem calcular uma novidade nestes países. Passámos uma das pontes que une os dois países de autocarro com alguma facilidade, não fosse o tráfego caótico e levar o carimbo na emigração, que demorou mais de três horas.
Era fim de semana, e parece que a malta de Singapura tem por hábito vir às compras a este lado. Tal como, portugueses a abastecer em Espanha.

Mal chegámos, deparámos-nos com uma cidade monstruosa, Johor Bahru, e decidimos que não era ali que queríamos ficar. Pegámos num autocarro até à estação principal e o Bag, sempre com o seu trabalho de casa feito, já tinha sugerido uma ilha na costa este, daquelas que não vêm nos roteiros mais turísticos. Havia autocarro directo para o porto mais próximo, os locais com quem fomos falando na fronteira e autocarros disseram que era brutal e nem ponderámos duas vezes.

Chegámos a Mersing, a pequena cidade portuária dominana por gatos, onde dormimos duas noites, para resolver a lombriguez e explorar o local. O barco saiu bem cedo, e sem expectativa absolutamente nenhuma, chegámos a um dos sítios mais virgens e bonitos onde tivemos – Tioman Island.

Com águas cristalinas, com turistas locais e meia dúzia de estrangeiros na parte que explorámos da ilha, poucas infraestruturas (o que encareceu a nossa estadia), praias desertas, trekkings, selva, muita vida animal – ou melhor, um jardim zoológico sem vedações, e gente afável foi, sem dúvida um óptimo lugar para recuperar e para o primeiro contacto com a cultura Malaia.

Tivemos filmes de reservas, de preços inflacionados porque eram férias de muita gente, um quarto repleto de cocó de rato e trinta por uma linha, mas era o lugar onde tínhamos de estar naquele momento e onde fizemos uma das coisas mais incríveis da nossa vida:

Scuba diving!

Mergulho era uma coisa que ambos queríamos experimentar, suscitava-me mais interesse a mim do que ao Bag, mas em contrapartida, também mais medo, é já andava a chateá-lo à uns bons meses com isso.
Ao longo desta viagem já tínhamos estado em alguns lugares onde havia escolas e condições para o fazer, mas porque não estávamos nessa frequência, o preço, as condições, fomos adiando.

No primeiro dia na Tioman vimos a cor da água, a ausência de lixo, e a quantidade de peixes logo ali à beira, alguns alunos a ter aulas, a tranquilidade do lugar e percebemos que seria um bom sítio para o primeiro mergulho.
Eu sentia-me bem, mesmo bem, como já não sentia à algum tempo, e marcamos a experiência logo para a manhã seguinte.

Posso dizer-vos que a sensação de estar fora do meu habitat natural, com litros de água sobre mim me deixa o coração a palpitar. Já saltei de para-quedas e nem um bocadito de adrenalina dispersou por este corpo, mas aqui o coração estava ao rubro.
Não conseguia esconder a excitação, enquanto pensava para mim, “não podes ser maricas, tu nem tens medo do mar ”.
O Bag estava na boa, parecia não lhe aquecer nem arrefecer e nem estava assim muito convencido que ia ser brutal.

Começámos por ver um filme sobre a prática, técnicas de segurança e passados 15 minutos já tínhamos os fatos vestidos, coletes às costas e um instrutor com um inglês péssimo a dizer “cima, baixo, metem isto na boca, respira, tá bom!”
O quê? Devem estar a gozar comigo, eu não vou para dentro de água com esta explicação de merda.
Olhei para o Bag e ele percebeu perfeitamente o que eu estava a sentir, com o olhar pediu-me para não desistir.
Reforçámos muito a ideia que precisávamos de praticar e fomos para dentro de água bastante inseguros.

Foi já no mar, que mais parecia uma piscina natural, que aprendemos as dicas básicas de segurança, a respiração, a aplicar os sinais e quando demos por nós, numa descida super gradual, estávamos a seis metros de profundidade.
Oooopaaaaaa!!! Só não dei um grito de felicidade porque provavelmente me ia engasgar.

“Documentário da BBC”, foi o que dissemos um ao outro depois dos 35 minutos de baixo de água. Tanta espécie de peixe, coral, alga, vida. A coisa mais maravilhosa que os nossos olhos viram e não, não era um documentário daqueles de Domingo de manhã que passa na TV e toda a vida me fez sonhar com isto, era eu ali, éramos nós!
Saímos radiantes, felizes, super orgulhosos de mim por ter conseguido.
Esqueci-me completamente do medo, e o Bag já estava mais que convencido, que não tinha sido um desperdício de dinheiro.

Ao primeiro mergulho, eles dão o nome de “Discovery Diving”, e como correu bem decidimos ir fazer o segundo, na parte da tarde. Já fazia parte do pacote que negociámos, com a possibilidade de desistência.

Mais profundo, longe da costa e numa zona onde poderíamos avistar tubarões de recife e tartarugas, entre outras espécies de peixes e lulas deixou-nos ainda mais entusiasmados.
Fomos com mais dois instrutores, e quatro pessoas que estavam a fazer o curso de mergulho. Todos eles já tinham mais de quatro mergulhos na conta e nós é que éramos os novatos da coisa.

Aprendemos como saltar do barco, e eu fui a primeira.
Deram-me indicações para descer pela corda até ao fundo. Lentamente, a fazer a descompressão dos ouvidos e a tirar o ar do colete. Fácil!
Mas eram dez metros!
Se fizermos contas, já tinha ido aos seis. Eram só mais quatro, mas o meu cérebro e o meu coração acelerado não pensaram assim.
“Vai para cima Marta, rápido antes que por algum motivo não consigas respirar e morras”.
Somos sempre tão alarmistas quando temos medo.

Tentei não entrar em pânico e não alvoraçar ninguém, mas mal olhei para cima, carreguei no botão de insuflar o colete e voltei à superfície.
Um dos instrutores seguiu-me, e eu disse-lhe que era demais para segundo mergulho, que tinha medo e que jurava que estava a lutar contra ele.
O Bag já lá estava em baixo com o grupo, provavelmente à minha espera para seguir…

Fod***, eu consigo.
Respirei fundo, pensei em tudo o que vi e consegui de manhã, pensei no meu Bag e voltei a descer, agarrada aquela corda como se fosse o cordão umbilical que me ligava à vida.
Bla, bla, bla, descompressão, tirar o ar do colete, manter o ritmo respiratório…
Aterrei lá baixo e tinha água na máscara. Normal, sabia bem que não preciso do nariz para nada, e que aquele mililitro não ia perturbar em nada a minha performance.
Mas…
O caraças! O meu atrofio era tanto que comecei a gesticular “Up! Up!”.
O Bag pediu-me calma, não me abraçou porque não pôde. O instrutor escreveu “calma” num caderno que dá para usar de baixo de água – e só por isso já valeu a pena – “Don’t use your nose”, enquanto me apertava o nariz.
Eu não estava a usar, mas o meu cérebro estava a gritar comigo e a dizer, “Sai daí miúda!”.
Saquei-lhe o caderno e escrevi: “UP NOW! Panic!”.
Voltámos para cima. Pedi desculpa. Talvez ainda não fosse pânico, mas sabia que não estava confortável e quis parar.
O Bag seguiu, não falámos. Sabia que ele estava preocupado comigo, mas ele também sabia que eu não queria que ele desistisse por mim.

Aliviada com a minha decisão supostamente ia para o barco, mas esta menina enjoa em barcos parados e para além disso tinha uma botija cheia de ar ás costas.
Cá de cima também dá para ver e tinha milhares de coisas debaixo das minhas barbatanas.
Próxima do barco, sozinha andei ali às voltas, e foi lindo!
Vi quatro tubarões de recife e quando avistei o primeiro comecei a gritar “Shark”. Empoleirada no barco a fazer uma figura ridícula, o condutor riu-se de mim e disse-me o que muita gente já tinha dito, “Estes não mordem”. Tudo bem, mas o bicho não é pequeno e não costumo nadar com tubarões todos os dias.
Pois, isso mesmo, não costumo, é uma oportunidade única e por isso saltei para dentro de água outra vez, já chegava de mariquices pra um dia.

Mais uma vez vi coisas lindas e nadei literalmente ao lado de uma tartaruga. Esta experiência foi mais uma espécie de snorkeling com botija do que diving, mas eu estava tão feliz e tão orgulhosa de ter conseguido no primeiro, e de ainda assim ter insistido ir lá baixo duas vezes no segundo, que nem me lembrei desse pequeno pormenor.
Os “ses” não interessam, mas talvez se fosse uma descida gradual eu tivesse conseguido os 12 metros.

Quando o Bag chegou estava igualmente radiante, super convencido que tinha sido uma experiência brutal. Foi das melhores experiências da nossa vida.

Todos temos os nossos medos e limitações, e é preciso conhecermo-nos para saber quando parar.
Apesar de não ter corrido a 100%, ficámos com vontade de repetir e fazer, quem sabe, o curso.

Experimentem!
E se tiverem medo, vão com medo mesmo. Eu fui!

Com amor,

 Marta & Bag

11 de Abril de 2019

Ao som de Queen – Under Pressure 

2 Replies to “Vai com medo, mesmo!”

  1. Que orgulho em ti Martinha!
    Também já fiz o meu baptismo de mergulho por isso quando quiseres repetir a experiência tens aqui companhia. A Malásia é sem dúvida o país que vocês estiveram que estou com mais curiosidade de conhecer 🙂

    Beijinho e aproveitem todos os minutos aí <3 🙂

  2. Meus queridos amigos, a prova está aí 🙂
    Vocês querem | Vocês podem | Vocês conseguem | Vocês MERECEM | Continuem a aproveitar essa aventura 🙂 Beijinhos.

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