Viajar na Malásia foi fácil, simples. As pessoas falam inglês, a comida é boa, há muitos transportes, estradas em boas condições e higiene acima da média e não se paga para tudo como os outros países nos têm habituado.

O nosso estado de espírito era de tranquilidade e estávamos ali para aceitar o que a cultura tinha para nos dar, sem nenhuma expectativa. E quando não há expectativas, não há o risco de sermos desiludidos.

Ainda na ilha, ponderámos enviar uns pedidos para workaway. Na Malásia, contrariamente a todos os outros lugares, as respostas levaram menos de um dia e ainda tivemos um convite.
Completamente do lado oposto do lugar onde estávamos, no entanto fazível, seguimos até à quinta do Jackie– óbvio que não tem este nome, mas por cá arranjam sempre nicknames, pelos quais gostam de ser tratados.
Depois de uma série de autocarros, já era de noite quando vimos o lugar onde íamos ficar.
Um espaço aberto, com um estrado, colchão insuflável, rede mosquiteira e umas lonas para proteger da chuva.
Cada vez que vamos para um lugar destes ou casa de alguém, é uma incógnita. Ao início imaginávamos, ficávamos com um nervosinho por não saber o que podíamos encontrar. Agora, vamos ainda mais descontraídos, nem pensamos nisso, pois à excepção do Palácio em Bali, apesar de ser tudo muito modesto, as pessoas dão-nos o melhor que têm.

Foram dias e noites compensadores e felizes, entre trabalhos mais duros e outros mais criativos. 

Fizemos um passadiço no jardim, recolhemos e embalámos mel para venda, pintámos, jardinámos, contribuímos para a elaboração de uma caça ao tesouro para miúdos que visitem o lugar, entre outras coisas.
Num dos dias ajudámos na preparação de um Workshop sobre abelhas e como tornar a apicultura um negócio sustentável.
O Jackie é malaio, filho de pais chineses, como uma grande parte da população cá. Os visitantes daquele dia eram todos chineses e nós ficámos ali a apanhar bonés numa formação que podia ter sido bem interessante, mas foi dada em mandarim.

Para além de se centrar na produção de mel na Indonésia, porque lhe fica mais barato, tem como foco de negócio as apresentações e visitas familiares no seu pequeno espaço.
Uma horta, um sistema hidropónico e as colmeias fazem parte do percurso.
Ao longo destas visitas, que são pagas, vai falando sobre questões de sustentabilidade, reciclagem, métodos de aproveitamento de águas entre outras coisas.
Um visionário por cá, que tenciona tornar a quinta também um lugar de alojamento rural e assim prosperar no negócio.

Nos tempos livres, entre viver de perto a cultura malaia, partilhámos quarto com um voluntário alemão, uma malaia e uma belga, cozinhamos comidas deliciosas, andámos de bicicleta, vimos pôr-do-sol incríveis e deliciámo-nos a observar a natureza de perto.
Para além das atarefadas abelhas sem ferrão – felizmente que não picam, se não teria sido uma má ideia para mim – a quinta está repleta de camaleões, borboletas, pássaros e cães.

Sobre o mel? Assim que é sugado da colmeia com uma seringa é delicioso, mas o que é vendido está em jerricãs grandes e tem um sabor super ácido por causa da fermentação. Quando passávamos para garrafas pequenas, o cheiro era bastante similar ao da cerveja. Um pouco estranho e invulgar, mas todos concordámos com esta observação. Este mel “especial”, é também mais caro, pois, supostamente tem propriedades ainda mais saudáveis do que o das abelhas com ferrão.
Aproveitámos para comer o máximo que conseguimos, mesmo a cheirar a cerveja estragada, porque é preciso é saudinha.

Da pequena quinta, seguimos para Malaca, a cidade que outrora foi portuguesa.
Entre boleias e autocarros, um senhor com quem partilhámos um dos transportes, sentiu a “nossa boa energia” e convidou-nos para almoçar.
Como a maioria da população, o Samir é muçulmano, é casado e tem quatro filhos. Teve um acidente rodoviário no passado, e resultado disso tem perdas de memória recorrentes. Para contornar esta situação tem um caderno onde anota tudo, desde o número do autocarro, às despesas, contactos, nomes entre mil e uma coisas.
A conversa ia normal até que perguntou se éramos cristãos. Eu respondi prontamente que sim, sei que para eles é completamente impensável não termos um Deus ou “não acreditarmos em nada”. Ele não ficou convencido com a minha resposta e quando fui à casa de banho, perguntou ao Bag se não éramos ateus.
Estas perguntas vieram no surgimento de nos lambuzarmos com a comida, antes de qualquer agradecimento. Provavelmente, o Samir crê que na Europa, a maior parte da população reza antes de enfardar, um facto que não é praticado com recorrência nem pelos cristãos mais fiéis.

Ficou bastante confuso com a nossa “não escolha”, ou escolha da ciência e da razão, e pediu-nos encarecidamente se podíamos agradecer a Deus a nossa refeição.
Não sabemos se era uma coisa que aceitaríamos de ânimo leve noutra situação, mas ali, aceitámos sem qualquer problema e aquilo deixou-o muito feliz.
Depois de pensar na situação, sentimo-nos hipócritas, mas o que devíamos nós de ter feito? Foram só umas palavras, mesmo que pela força que possam ter.
Agradecimentos à parte, a conversa acabou com a conclusão óbvia que há espaço no mundo para todos e que o respeito é a base de tudo. O Samir fez questão de nos pagar o almoço.

Ateus ou não, somos cada vez mais agnósticos em relação às religiões e às guerras e conflitos que parecem não ter fim, por não jogarmos todos na mesma equipa.
No entanto, esta viagem está a acentuar a nossa convicção, de que a religião é um ponto fundamental na existência de multiculturalidade e diferenças e é gratificante ter a oportunidade de ver todas estas tradições ligadas a ela.
O nosso ponto de vista é claro, respeitamos toda e qualquer crença, desde que isso não implique magoar, intimidar ou inferiorizar alguém.

 

Em Malaca o Sam – mais um nome adaptado – estava à espera para nos receber.

Vive num bairro a dez quilómetros do centro da cidade, onde todos os dias às mesmas horas se ouve a mesquita. Ficámos três noites na sua humilde casa, e estando ele de férias, acabou por nos levar de carro para todo o lado. Uma mega vantagem, tendo em conta que só havia dois autocarros da cidade para sua casa e o calor e humidade que se fazia sentir era tanto, que percebemos o fascínio pelo ar condicionado ao máximo no carro e agradecemos como se não houvesse amanhã.
Tivemos sorte de ter mais um host generoso e que nos tratou como família. Para além de cama e transporte, quis pagar almoços e jantares, mostrou-nos restaurantes locais, mercados nas redondezas, mesquitas bem bonitas.

Malaca é uma ex-colónia portuguesa, posteriormente holandesa e por fim britânica. Está num ponto estratégico que foi interessante a todos estes europeus e o qual Portugal perdeu, porque é costume ser assim: conquistadores mas manter o território é que não, que isso dá trabalho.
Como de costume entrámos a matar, a converter e destruir e ainda assim quando dizemos que somos portugueses é uma festa.
Para além da Famosa – porta de um forte construído por nós – há igrejas, a réplica de uma nau, um bairro, restaurantes, os ilustres pastéis de nata e gente a falar o “português antigo”.
É uma pequena cidade agradável, onde a street art dá cor a muitas paredes e murais. Há um mercado nocturno super atarefado, templos giros e cafés cheios de pinta à beira rio.
É conhecida também pelos seus riquexos, umas bicicletas de três rodas, enfeitadas ao mais pequeno pormenor com os mais variados desenhos animados. À noite começa o basqueiro de luzes e som, que apesar de ser uma grande foleirada até tem a sua piada.

É interessante que em quase duas semanas de Malásia não conseguimos definir o que é comida local, porque os próprios habitantes dizem ser uma grande misturada. Entre pratos chineses, indianos e os buffets com tudo e mais alguma coisa, temos a dizer que a comida é deliciosa e super acessível.
Outra coisa comum por cá são as cadeias de fast food mundiais e o Starbucks que se encontram, literalmente, em cada esquina.
Mais de noventa por cento dos lugares, à excepção dos chineses, vendem comida “halal” e não incluem porco na ementa.
*halal – forma específica de preparação de um animal, sendo o único tipo de carne consumida por muçulmanos. Nas cadeias de fastfood há referências a este modo também.

Exceptuando a grande comunidade chinesa, de forma muito generalizada, de velhas a crianças, a população feminina usa hijab e não anda com braços e pernas descobertas. Com o calor que se fazia sentir pareceu-nos uma prática dolorosa.
O Sam disse-nos que as mulheres eram livres para optar, mas se todas andam, as que arriscariam em não usar, serão mal vistas pela restante sociedade.
Perguntamos à Lee, colega do Workway, que nos disse que quem não usar pode ter repreensões graves e que a partir de muito novas são incutidas ao uso.

Daquilo que percebemos Malásia não um país muito liberal. Quem nasce na Malásia é muçulmano, não há dupla nacionalidade e apesar de muitos dos habitantes ter descendência Chinesa, Indonésia e Hindu, acabam por escolher a Malásia porque esta tem, ao lado da Estónia, a décima segunda posição do ranking de melhores passaportes do mundo.

Os habitantes falam da corrupção, da tentativa do governo intimidar pessoas e de hà pouco tempo ter proibido roupas justas, medida que as mulheres ignoraram e muito bem.
Estas questões não estão a par com o desenvolvimento industrial, científico e turístico do país. É, a terceira maior potência do Sudeste Asiático, claramente visível em tudo. Não fossem os trajes e acharíamos que estamos na Europa.

Com amor,

Marta & Bag

21 de Abril de 2019

Ao som de Beatles – Something 

One Reply to ““Thank you god””

  1. O que me identifica mais é como falam da comida! Adoreeeei!!
    E adorava ter estado nesse workaway das abelhas!! Aprende se sempre tanto! Recomendo a 100%

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *