Seguimos os quatro até Kampot: uma cidadezinha muito pequena no Sul do Camboja, a meia hora da fronteira com o Vietname.

Foi uma cidade em muitas coisas diferente do resto do país que visitámos. Mais limpa e com uma grande população de estrangeiros. Basicamente, pareceu-nos um lar da terceira idade para estrangeiros do norte da Europa e América, que decidiram que seria lá que iriam desfrutar dos últimos anos da sua vida.

“Porquê?”
Perguntam vocês e perguntámos nós.

Por ser um lugar onde o tempo passa devagar, não há pressas nem correrias. Não há a necessidade (tão tipicamente ocidental) de comparar nada com o vizinho ou adquirir porque está na moda.

A qualidade de vida sente-se através da observação do ritmo de vida das pessoas. Óbvio que aqui não podemos incluir a azáfama do mercado, ou a condução tresloucada das motos, mas podemos ver que se movimentam com calma, que conversam na rua, que tem como factor de seleção o preço das rendas, da alimentação e da cerveja (o último ponto parece mesmo muito importante).

 


Os locais dormem de porta aberta, em cima da moto, nos seus negócios – como em todo o país – no entanto aqui com a particularidade de, especialmente as mulheres, andarem sempre de pijama. É tão invulgar para nós que se torna divertido. No mercado, no café, na praça, na moto… Pijamas combinados, coloridos, descombinados, russos e já a precisar de reforma. Percebem a capacidade de síntese e prática que isto provocaria nas nossas vidas? Acordar, lavar a cara e sair para trabalhar confortavelmente de pijama. A nós, soa a perfeição.

 


Tivemos quatro dias a explorar os arredores com amigos, alugámos moto e fizemo-nos às estradas – mesmo cheias de pó e buracos, comparadas com as da ilha, foram uma maravilha.

Perdermos-nos pela montanha, pelos subúrbios, pelas estradas secundárias e, não tendo visto os tão aclamados campos de pimenta, sentimos bem o seu paladar em todos os pratos que comemos. Assistimos a mais esquemas com crianças, na tentativa de fazer uns trocos, mas é assim em todo o país.

À medida que saímos da cidade e percorremos as estradas secundárias, observamos pontos de luz e fumo: são as fogueiras às portas de casa para queimar o lixo do dia. O cheiro é característico e não o vamos esquecer.
Os campos de arroz são das paisagens mais bonitas e marcantes do país.

 


Próximo fica Kep, um lugar conhecido pelo Crab Market, ou mercado do peixe. E calhou mesmo bem porque já tínhamos tanta saudades de comer um peixinho grelhado.
A abundância e frescura é visível. Os alimentos saem ainda a mexer do mar e são postos em baldes, amanhados e passam directamente ao grelhador. Há de tudo: marisco, lulas, polvos, peixes de todos os tamanhos e feitios, grelhados em espetadas e acompanhados com os mini saquinhos de picante que faz chorar.
Apesar da área costeira enorme, os restaurantes não vendem peixe com frequência. Também não há vilas piscatórias nas zonas de mar, como estamos habituados a ver no nosso país.
A única praia que vimos em Kep estava atolhada de gente vestida e de lixo e, apenas os homens vão ao banho em tronco nu. As mulheres e crianças vão maioritariamente vestidas e adivinhem com o quê?
Pijamas!!!

Foi aqui que os nossos miúdos nos largaram para seguir até Portugal. Nós, ainda com 10 dias no Camboja, não tínhamos planos.

Viajámos mais depressa por estar com amigos, desleixámos as buscas e planeamento e ficámos desmotivados por momentos. Não tínhamos rota para continuar e a Marta estava a sofrer com comichão por todo o corpo sem saber ao certo do que se tratava e como resolver.
Como nada é permanente, nos entretantos, recebemos uma resposta positiva de um Workway mesmo ali, do outro lado do rio e pliiim.

Explosão de alegria!

Fomos muito bem recebidos na Playground, uma futura guesthouse de um casal na casa dos 30 anos, estrangeiros a fixar-se aqui com a sua pequena e a ultimar os preparativos para abrir portas. Tínhamos planeado ficar 5 dias e acabamos por ficar 10.

 


Mal chegámos e, vendo as marcas no corpo da Marta (que nesse momento e desde as primeiras picadas já eram centenas), explicaram-nos que tudo indicava que seriam devido a bed bugs, em português percevejos, e que precisávamos de ferver tudo o que fosse roupa, mochilas, bolsas e passar a pente fino o que não pudesse ser lavado.

Desculpamos-nos muito porque a nossa intenção nunca seria causar problemas ou uma praga. Emprestaram-nos roupa, ferveram e lavaram tudo a custo zero e no dia a seguir nem uma picada nova. Sentimos-nos muito gratos por estar lá e por aquele comichão infernal estar a passar gradualmente.

Fizemos amigos, contactos, trabalhamos no duro, divertimo-nos, comemos comida boa ocidental para desenjoar dos noodles e do arroz e vimos pores do sol de cortar a respiração. O Bagagem passou quase todo o tempo em pinturas e a Marta em limpezas. Houve coisas com as quais não nos identificámos neste lugar, mas não sendo nosso e estando de passagem, aprendemos a aceitar e a cumprir com a nossa parte do acordo de 5 horas de trabalho diárias.

Finita a nossa data, e chegado o visto para o Vietname, pusemos a mochila às costas, subimos os dois para a moto do Steve (o nosso anfitrião), que nos deixou em ponto estratégico para pedir boleia até à capital Phom Penh.

 

Para primeira vez (de longa distância), não correu mal, mas também não foi perfeita. Quem parou pediu dinheiro para nos levar e isso demonstrou muito sobre o país. Cedemos (por 2.5$ cada), e fizemos a viagem até à capital que exploramos pouco, apenas com o objetivo de ir directos ao Vietname.

 

Deixámos o Camboja com a sensação:

.Que é um país a reerguer-se da chacina cultural que passou;
.Que tudo o que as pessoas tinham lhes foi tirado e actualmente a grande maioria aceita a realidade em que vive  sem ambicionar mais;
.Que o estrangeiro é uma fonte inesgotável de obter dinheiro – é obrigatório negociar;
.Que são precisas mudanças drásticas ao nível do consumo, recolha e tratamento do lixo porque vamos sofrer todos com isto;
.Que há muita exploração infantil;
.Que apesar de todos os esquemas e preços inflacionados, conhecemos gente honesta;
.Que o Camboja vai para além do Angkor Wat, mas que este é de facto o ex libris do país;
.Que as pessoas são felizes;
.Que as condições de higiene ficam muito a quem do que estamos habituados;
.Que os transportes nunca são directos nem pontuais;
.Que adoram cozinhar com açúcar – agridoce;
.Que o custo de vida é alto;
.Que são profissionais a usar Photoshop porque os hósteis, transportes e tudo mais nunca corresponde à realidade;
.Que a grande maioria fala qualquer coisa de inglês;
.Que marcou os nossos corações.

Obrigado ao Taró e ao Zé por nos acompanharem nesta aventura. Foi bom partilhar um bocadinho da nossa viagem com amigos desta vida.

Com amor,

Marta & Bag

Ao som de Bob Dylan – Like a rolling stone

3 Replies to “Kampot – Cidadezinha especial”

  1. Também achei o Camboja o mais corrupto, desigual merecia bem melhor com um passado tão pesado
    Afinal foram percevejos!!!!
    Beijos viajante

  2. Opa, muitos dos vossos pontos finais aplicam-se a Índia, nomeadamente sobre o lixo; sobre os turista serem sacos de dinheiro com pernas e que ainda assim se conhece gente honesta.
    Acredito que viajar seja muito sobre pessoas mas sem dúvida que também é sobre as paisagens que vemos e com quem vemos.
    Viajar com amigos é qualquer coisa

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