Olá Vietname.

Quinze dias depois cá estamos rumo ao norte.

Têm sido tempos agridoces contigo, como a tua comida. Entrámos na tua terra cheios de planos e entusiasmo, mas, o mesmo, foi-se dissipando aos poucos. Talvez tivéssemos à espera de outra coisa. De outras pessoas, comida maravilhosa, e braços abertos para nos receber, mas bem, depois de tempos de desmotivação, estamos prontos para contrariar a tendência em relação à nossa estadia cá.

A tua maior cidade, Ho Chi Minh, foi quem nos recebeu após 10 horas de autocarro desde Phom Penh – capital do Camboja – e não esperávamos tanta ocidentalidade. Cidade caótica onde achamos que há mais motos que pessoas, não estivessem os passeios, as estradas e tudo mais, cheias delas. Contrariamente, por vezes está toda uma família em cima de uma, o cão, um jardim. É cidade de muitos malabarismos nas bicicletas. Não acreditámos que nós conseguíssemos tais proezas. As vendedoras de rua, os mercados em todo e qualquer lugar.
O distrito 1, o teu centro, está mega preparado para o turista. Dezenas de bares com música terrível altíssima, as massagens, as lojas cheias de camisas com padrões de bananas e calças dos elefantes. Chegámos em altura de Halloween e não estávamos nada à espera que os teus habitantes delirassem tanto com esta americanice.
Os teus prédios são altos mas super estreitos, encaixados uns nos outros e parece que, se um fosse eliminado, cairia tudo tipo dominó.

Ficámos num hostel onde, para chegarmos ao nosso quarto, subíamos quase 100 escadas. Foi um lugar porreiro para se estar, com pessoas do bem, onde trocamos impressões, ideias, e nos sentimos em casa. A comida era super barata e deliciosa, e o dono, um Vietnamita bastante viajado e bem falante, deu-nos algumas dicas e contou histórias incríveis da guerra que nos puseram de lágrima no canto do olho (Mobylette Hostel). É comum em muitos hosteis haverem beliches com camas de casal, uma novidade para nós.
Palmilhámos as tuas ruas, algumas delas tão estreitas que só passa uma moto, ficámos no parque a conversar com os locais que nos abordam para praticar inglês – é bastante normal que isto aconteça, e visitámos as principais atracções não pagas. Há uma estação dos correios e, logo ao lado, uma imitação de Notre Dame que nos faz parecer que estamos num país qualquer da Europa. Não é por nada que esta cidade é chamada de Paris do Oriente. As pessoas fazem montes de actividades no parque e adoram futebol, e claro, o Ronaldo. Nota-se que há poder de compra e qualidade de vida (não para todos), pelo menos na tua Saigon.

Decidimos visitar o museu da Guerra da América – e não do Vietname, como normalmente lhe chamamos. A história é muito complexa e creio que precisamos de mais pesquisas para a tentar entender. Sabemos que tudo começou com o teu pedido de independência aos colonos franceses que te dominaram por um século. Antes disso sofreste invasões chinesas, tiveste imperadores. Quando começaram a guerra, estavas dividido em dois: comunistas e anti-comunistas. Depois entraram várias potências, e a mais destruidora, os Estados Unidos da América. Dezassete anos de guerra, milhões de dólares investidos para te mandar abaixo. Mais munições e bombas que na II Guerra e na guerra da Coreia juntas. 864.000 toneladas de explosivos só no norte.
A tua população foi utilizada como bode expiatório para várias experiências. O famoso “agente laranja” – substância química utilizada pelas tropas americanas no solo para destruir plantações agrícolas e florestas usadas como esconderijo, causou danos e mal formação de crianças no teu país. Ainda hoje são visíveis os danos, mesmo após quarentena anos.

Bem Vietname, também sabemos que provavelmente não tomámos as melhores decisões ao nível de deslocações. És uma língua gigante e, por vezes, ficámos confusos sobre a melhor forma de te explorar. Agora que pensamos, não foste o único culpado por tempos iniciais tão agridoces, mas diz aos teus habitantes que se continuarem a tratar o turista como uma máquina de fazer dinheiro com pernas, provavelmente, com os anos, vais perder esta grande fonte de receitas.

Também ficámos doentes. Cinco dias em Da Nang (uma cidade lá para o meio, nada de especial) numa espécie de apartamento a recuperar de febres baixas, dores de barriga, dores de cabeça. Para juntar à festa, os nosso corpos encheram-se de manchas, a cabeça da Marta ganhou uns caroços.  Fomos novamente atacados por bed bugs que, ou nos perseguiram durante mais de dez dias bem sossegados nas nossas mochilas, ou num quarto com 16 pessoas, decidiram sugar novamente a Marta. As nossas energias contra estes bastardozinhos já estavam esgotadas. Depois de várias tentativas e de muita dificuldade em encontrar uma lavandaria que nos secasse a roupa, mochilas, bolsas e tudo o que contive se uma costura, espaço vital para estes nojentinhos, lá conseguimos. Depois de muita desmotivação e mais umas dezenas de mordidas, acho que acabamos com eles mais uma vez – e esperemos, de vez. Houve diagnóstico de alergia alimentar, dengue e uma série de coisas, mas cremos que pode ter sido Zika, nada de grave se não houver (e não há) gravidez envolvida. Agora estamos bem, cheios de energia e saúde.
Depois de tanto contratempo e, esquecendo o motivo que nos levou num voo interno até Da Nang, pusemos de parte a compra da moto para explorar a zona costeira e as montanhas do norte. Há dezenas de viajantes a fazê-lo, mas, pelos valores que estávamos dispostos a dar, uma moto para dois e duas mochilas parecia complicado e fomos desencorajados por muitos colegas, locais, e outros viajantes a fazê-lo.
Optámos por fazer como sempre fazemos. Autocarro, comboio ou boleia. A moto vai esperar por outras aventuras.

Foi tempo de receber amigos e já melhores mas ainda não a 100% passamos dois dias em Hoi An, uma pequena cidade e uma surpresa. Atraente e chamariz de muitos turistas pelas lanternas coloridas ao redor da cidade cheia de influências japonesas e chinesas. A bicicleta aqui foi o nosso meio de transporte, pedalamos pelos teus campos e finalmente vimos os aclamados búfalos a chafurdar na terra, a lavrar e a colheita do arroz. Visitámos as praias e aqui, igualmente ao teu vizinho Camboja, cobras pelo estacionamento de tudo o que tenha rodas. Apesar de ser pouco, por vezes optámos por seguir caminho ao invés de parar só para não pagar aquele que é um valor irrisório mas absolutamente dispensável quando só queríamos espreitar uma praia.

A Marta teve direito a um corte de cabelo, como tanto queria, num salão improvisado nas ruelas de Hoi An, acompanhado por um bom vinho Chileno e um documentário em tempo real sobre a agitada vida das ratazanas da cidade. Não foi fácil encontrar uma tesoura mas tudo é possível quando há gente disposta por perto.

Apesar de algumas irritações iniciais, de possíveis más decisões – que nunca vamos ficar a saber se o foram ou não, estamos a dar-te oportunidade de redenção. Ficámos tristes por não ter ido ás tuas praias do sul e desanimados quando percebemos que precisaríamos de duas motas para os dois, mas estamos aqui de braços abertos dispostos as novas aventuras e agradecidos por estar a viver-te.

Com amor,

Marta & Bag

Ao som de Radiohead – There there

One Reply to “Vietname agridoce”

  1. Depois da tempestade vem a bonança ?
    Contratempos há sempre, mesmo nas viagens mais bem planeadas. E vocês superam todas as dificuldades, a vossa vontade de continuar é maior.
    Sou sincera que se o meu filho um dia quiser fazer algo do género, ficarei feliz, mas inquieta e de coração apertado todos os dias ?
    Obrigada por nos avivarem a memoria com estes retratos de história de guerra que já estavam “arquivados”.
    Keep going
    ?

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