Mimos de amigos. Recuperadissimos de sabe-se lá o quê.

Decidimos tentar uma boleia de Hoi An a Hue (125 Km). Não é a forma mais comum de nos deslocarmos, mas de mês em quando esticamos o dedo e esperamos que a sorte nos assista.

Foram duas boleias, um autocarro e uns quilómetros nas pernas. Nada demais, não tivesse sido a segunda boleia dada por um motorista de camião que parou a meio e fez questão de nos pagar o almoço.
Obrigado senhor camionista, fez-nos acreditar que nem toda agente no Vietname quer vender, enganar-nos ou ficar com o nosso dinheiro pelas mais diversas coisas.
O Bag foi no banco do pendura bem reconfortado, a Marta com o seu exemplar metro e sessenta e dois (importante), foi no meio dos dois bancos, no chão, ao pé da cama do motorista, onde, por baixo – imaginem – havia uma gigante coluna a bombar (nada mais, nada menos que) música “alternativo bimba”, que quase nos furou os tímpanos.

Por cá, adoram música electrónica misturada com umas melodias que não assentam no ritmo, muitas vezes cantadas por dois intérpretes, feminino e masculino. E também karaoke. Em todas as vilas, cidades, aldeias, há uma coluna, um “Club” ou um bar de Karaoke. Normalmente vazios, por isso nunca fomos a nenhum.

Fartos de cidades, fomos para Ninh Binh para andar a desbravar os campos de arroz que, nesta altura, já foram colhidos. Mas não nos fizemos lá velhos. A viagem de autocarro foi terrível, num daqueles night bus que todos falam tão bem. Tivemos azar. Estava sujo, mal cheiroso, com umas camas pequeninas e, como também apanhámos grande molha antes de chegar, não se revelou muito confortável. Fomos deixados a quatro quilómetros do centro porque o senhor motorista não quis fazer o “desvio” para a estação por causa de dois forasteiros. Típico por cá.
Tínhamos tempo – temos sempre – e uma coisa onde não gastamos dinheiro é em deslocações de curtas distâncias. Entenda-se que curtas distâncias é um termo relativo, tendo em conta o momento, o peso carregado nas mochilas e a preparação física do indivíduo. Mas neste caso, às cinco da manhã, seis quilómetros até ao hostel, depois de não pregar olho, foram encarados como uma curta distância.
O que nos deu alento foi àquela hora matutina ao longo do caminho, vermos os locais a prepararem-se para abrir os seus negócios, a correr, caminhar, meditar e fazer uns exercícios giros com os braços e pernas rondando-os sobre si mesmos em continuas repetições.
Perceba-se que por cá o sol se põem cedo e as coisas fecham muito cedo também.

Desculpa Ninh Binh, apesar da tua beleza ainda não eras o sítio onde queríamos ficar por uns dias.
Pegámos nas coisas e fomos até à Ilha de Cat Ba. Para chegar a viagem não foi fácil também. Um autocarro, um táxi, um mini autocarro, um barco, uma carrinha. Tudo incluído no preço do bilhete mas sem nenhuma informação sobre para onde ou como ir.
É seguir a multidão, minha gente.

Deslocar-mo-nos no Vietname é sempre uma aventura. Sempre! Nunca sabemos a hora exacta da partida (é aconselhável estar antes), onde nos vão largar, quanto tempo demora ou as condições. Mas sabemos que pagamos 3 ou 4 vezes mais que os locais se comprarmos em algumas estações.
Dica: comprar online ou ir com um local à estação.

Cat Ba é a ilha mais próxima da famosa Halong Bay. Tinha tudo para estarmos radiantes, mas a chuva não dava tréguas, a comida nunca surpreendia e continuávamos desanimados com o Vietname. Encontrámos pela primeira vez viajantes com a mesma sensação de desilusão que nós.

Questionamos-nos várias vezes sobre o que terá acontecido ao Vietname que todos nos falavam com um sorriso nos lábios. Parece que isto tem levado uma volta e que a massificação do turismo (como sempre) não está a ser boa coisa.

Também foi em Cat Ba que começamos a animar-nos. Caramba, estivemos lá cinco dias. Tínhamos de nos animar agora ou seguir para outra freguesia.
O Bagagem foi passar som numa das noites a um bar que nos pagou o jantar e bebidas em troca.
Os locais não estavam fascinados com a música (já aqui falamos antes dos gostos musicais do povo Vietnamita), mas a estrangeirada estava a gostar daqueles clássicos dos anos 70 e 80. Foi apenas uma hora de boa música seguida de muito Hip Hop e bruxaria. Abusámos nos nossos pedidos e comemos um hambúrguer cheio de todas as porcarias e mais algumas para desenjoar o arroz e os noodles instantâneos, que valiam bem mais do que a média de dois euros que estamos habituados a pagar.

No dia do tour ao redor da famosa, esplendorosa, uma das sete maravilhas naturais do mundo: “Halong Bay” não choveu. Uuuuuiii! Que alegria a destes dois. Aproveitámos aqueles raios de sol até ao tutano porque já não podíamos ver mais aquele quarto de “Hotel” com suposta vista para o mar enquanto choveu torrencialmente nos últimos dias.

Há tours para todos os gostos e carteiras. Nós escolhemos a mais barata que encontrámos (12€ por dia, com almoço incluído) para visitar a Halong Bay, fazer canoagem, nadar, desfrutar da zona, passar pela vila flutuante e ver a praia dos macacos.
Para nós foi suficiente e recomenda-se. A Marta enjoa quando os barcos estão parados e, por isso, dormir por lá não era opção. Entenda-se que há muito para explorar, são 1969 ilhas, ilhinhas e ilhotas, altas formações de calcário rodeadas de vegetação e natureza. Se estivermos atentos, por vezes conseguimos vislumbrar uma família ou outra de primatas no seu estado mais puro.

Passámos pela ilha dos macacos, onde os primatas por mais engraçados que sejam por se equiparar ao ser humano, também, igualmente ao ser humano podem ser muitos estúpidos. As pessoas são avisadas para não ter comida nas mochilas mas tem de haver sempre um espertinho ou outro que se atreve a tirar uma bolacha e quase acaba por levar uma dentada. Vimos primatas a roubar latas de cerveja e a beber com a maior naturalidade do mundo. Por isso, se os gajos já podem ser agressivos sóbrios, imaginem bêbedos.
Nesta ilha há um miradouro que se pode, literalmente, escalar e tem uma vista maravilhosa sobre toda a baía envolvente. A caminhada é curta, porém dura. Vale muito a pena.

A nossa parte preferida foram as vilas flutuantes: casas construídas em cima da água, com viveiros de peixes nas redondezas, e cães, muitos cães. No nosso país provavelmente chamar-se-iam aldeias piscatórias.
Inicialmente, pareceu-nos completamente remoto (pela volta que demos de barco) e impensável morar ali, mas a maior parte das pessoas que optam por lá estar fazem-no temporariamente com o objectivo de fazer dinheiro com o peixe, para depois retornar ás vilas térreas. As rendas são baratas, há Tv e internet, e estão a 5 minutos da cidade de barco.

Não esperem grandes areais por estes lados, as únicas duas praias que vimos na ilha têm resorts construídos em cima do areal. A construção nesta zona é incrivelmente descontrolada e está em crescimento. A rua principal da ilha é composta por dezenas de hotéis todos com a mesma aparência. Edifícios altos a destruir a paisagem e muitos bares e restaurantes quase todos vazios nesta altura do ano.
Apesar da alta probabilidade de chuva, cremos que a época baixa é fabulosa para visitar este tipo de atracções. Os preços são mais baixos e ao invés de 200 barcos a sair por dia para vislumbrar a Halong Bay, não nos cruzámos com mais de dez no dia em que fizemos o tour.
Houve paz, silêncio, e isso não tem preço.

Acabámos por nos animar nesta ilha, c as paisagens, as pessoas que conhecemos, com um prato ou outro de comida melhor (Restaurante Casa Bonita), com o tempo e por isso ficámos para os nossos primeiros seis anos juntos.

O objectivo agora era ir para o Norte. Para o meio do nada, no meio do tudo: a Natureza.
“Passem tempo no Norte, malta, que não se vão arrepender”.

A caminho…

Com amor,
Marta & Bagagem

14 de Novembro de 2018

Ao som de Panama Cardoon – Moliendo café

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