Parece que no Vietname é como Portugal, a malta do norte é mais acolhedora cara***.

Passámos apenas dois dias em Hanoi, a cidade onde mora tanta gente como no nosso país o inteiro. Muitas motos, como na capital, muita desordenação, mas ao mesmo tempo, tudo no seu lugar. Buzina-se para cá é para lá.

Estafadinhos da viagem, mas com casa apenas às 20 horas, porque íamos para um Couchsurfing, andámos a explorar o Old Quarter (Quarteirão antigo) e os arredores, de mochila às costas. Uma coisa é quando estamos no ponto A e vamos para o ponto B, outra é perdermo-nos por cantos e recantos de uma cidade enormesca.
Assim que chegámos, ficamos felizes por encontrar sandochas bem boas, a menos de um euro. As baguetes por cá estão em todo o lado e as sandes fazem parte do menu. Franceses e o seu legado.

 


Caminhámos até encontrar a tão famosa linha do comboio que passa por entre as casas. É a linha mais antiga do Vietname. Para nós super giro e curioso, mas ali vive-se com a maior das naturalidades. Há barbeiros, estende-se a roupa à beira dos carris, e os animais de estimação deambulam por estas bandas.

 


Numa das paragens do dia, bebemos um café com ovo, típico por cá. Faz-nos lembrar a gemada que as nossas avós preparavam quando eramos miúdos, mas com café. É super super doce mas muito bom. Quem passar por Hanói deve provar. O café no geral é bom em todo o lado e servido com um utensílio especial que se mete sobre o copo e, pouco a pouco, filtra a água que está na parte de cima com a borra. Pinga a pinga, temos o café.

Ficámos na casa da Thuy, a cinco quilómetros do centro. Num daqueles bairros onde há cerca de quatro números de rua para chegar ao destino final. É como se cada vez que virássemos a esquina, entrássemos num novo bairro, mais pequeno e peculiar que o da rua “principal” anterior. Ruas escuras, apertadas. Portas abertas, como sempre. Muitas pessoas têm, naquilo a que chamamos marquise em Portugal, umas coisas para vender, uma lavandaria, um barbeiro, um restaurante e depois desta divisão principal, a casa.

Todos queriam ajudar, mas ninguém parecia conhecer a nossa host. Até que em frente ao número da casa que achámos que era começamos a chamar bem alto “Thuy, Thuy”. Da estreitinha rua do lado vem a Thuy, miúda cheia de energia e boa disposição a correr que nos direciona para o sitio certo. Fala muito bem inglês e a empatia é rápida.

Tudo o que queríamos era um banho e largar as nossas mochilas e foi isso que fizemos.
A casa era humilde. Tem 3 andares mas com divisões muito pequeninas. O suficiente para viver. A nossa cama é um comum “sofá” de madeira que todos têm por cá mas sem colchão. Damos graças por ter um sitio gratuito onde dormir e ter os nosso colchões insufláveis na mala.
Já não era cedo, mas passamos mais de três horas á conversa. A Thuy é uma rapariga pouco mais nova que nós, que trabalha numa agência de turismo no centro da cidade. Estudou na universidade e de vez em quando consegue viajar pelos países vizinhos meia dúzia de dias. Vive naquela casa com uma prima. Casa que é do tio e que lhe dá uma grande ajuda pelo facto de não ter de pagar renda. Ambiciona trabalhar e viajar pela Europa mas tem plena consciência que o nível de exigência na Europa é diferente e a entrada de asiáticos complicada.

As motos estão estacionadas na cozinha onde estamos à conversa sobre o mundo, sonhos e ambições. Os vizinhos vêm espreitar para perguntar-lhe se está tudo bem. Ficam curiosos com a nossa presença e ela diz-nos que é que é sempre assim quando recebe pessoas. Parece que estamos do outro lado do mundo, tudo é tão diferente mas no fundo tão similar.
Conversamos sobre o estado do país, fala-nos da corrupção, da diferença e desigualdade de classes. Diz-nos que ordenado médio vai de 200$ a 250$, mais uma vez ficamos incrédulos. Tão incrédulos como os nosso amigos do norte da Europa quando falamos do nosso. Diz-nos uma coisa curiosa a cerca do turismo: ela própria crê que os vietnamitas querem ganhar tanto com o turista que, mais cedo ou mais tarde, podem perder esta avalanche anual de gente.
Dá-nos boas dicas de lugares a visitar e combinamos sair todos às 8 da manhã porque não tem outra chave.  Nos entretantos, uma vizinha cusca, chamada ratona, entra por um buraco na cozinha e volta a sair quando percebe que há lá atividade. A Marta respira fundo muitas vezes, não grita e está cada vez melhor em relação à sua aversão por estes bichos.

Foi dia de ir para o centro, explorar arredores, provar a Bia Hoi – cerveja artesanal que se encontra em muitas esquina da cidade. O preço por copo são uns 0.20€. É fraquinha mas é fresquinha.
Apanhámos os tradicionais mercados. A cada novo que vamos, vemos criaturas novas, comidas, frutas. E, se umas apetece muito provar, outras nem por isso.
Já se sabe, e aqui não é excepção, regatear tudo, mas nem assim vamos conseguir o preço local.

 


Há vários lagos em Hanoi, mas o central, perto do Old Quarter, é uma agitação. Pessoas de todas as idades a caminhar, correr, fazer desportos em grupo, dançar, passear os cães, a relaxar. Chega a não haver nem um espacinho nos bancos. É muito fixe ficar por lá só a observar e a relaxar depois de dois dias a palminhar de lés a lés e a perceber o ritmo da vida destas pessoas.

 


A malta por cá também vai de modas e há uma tara pelos “cães peluche” . Não sabemos o nome das raças mas são aqueles que dá para fazer cortes de pêlo de modo a que pareçam ursinhos fofos (caniches talvez).
No parque, parecia a concentração de cães peluche, com direito a desfile e tudo.

 


Apanhámos uma plena luta de galos num dos parques da cidade e ficámos embasbacados a olhar.
Parecia um combate a sério, com rounds. Um pobre galo todo depenado, outro bem mais pomposo. Até que um leva uma bicada daquelas, pára tudo e há massagens do seu humano (massagens num galo?!) água, gelo e incentivos. Parece surreal mas é muito comum por cá. Pelas ruas das cidades e aldeias muitas vezes há umas espécies de jaulas onde estão os bonitos exemplares de galináceos, provavelmente prontos para acção. Outros não tão bonitos, pobres coitados, já lhe arrancaram as penas.

Nos nossos planos de segundo dia tínhamos às 17h uma “aula” de português com um rapaz Vietnamita que conhecemos no parque no dia anterior.
Basicamente estávamos a caminhar quando se meteu connosco e perguntou se éramos espanhóis. Acreditem ou não muitas vezes os locais passam por nós e simplesmente dizem “Hola!” (em todos os países que já visitámos).
Dissemos-lhe que éramos portugueses e para nosso espanto começou a dizer umas quantas coisas na nossa língua. Impressionados, combinamos no dia seguinte para falar mais pois ele queria muito pôr em prática o que estava a aprender sozinho no YouTube e outros sites. Atenção que este auto didacta aprendeu da mesma forma inglês e espanhol.
No dia seguinte chegou com a comitiva toda: família e amigos. Pensámos que íamos estar só com ele a praticar as frases feitas que tinha o caderno, mas estava tão orgulhoso e feliz que levou toda a gente para nos conhecer. Falamos em inglês sobretudo sobre futebol. Não estivesse a Ásia Cup a acontecer e não fossemos nós desse país chamado “Ronaldo”.
Depois disso, gravámos um vídeo com uma conversa básica em português para o Hoang por em prática com os turistas e conseguir apanhar melhor a pronunciação das palavras.

 

Quando demos conta já estávamos atrasados para o jantar com a Thuy, onde comemos o melhor Pho – sopa de noodles de arroz com carne e algumas ervas aromáticas – até à data.

Na madrugada seguinte, às cinco da manhã estávamos prontos para nos despedir da querida Thuy. Estava radiante com aquilo que estamos a fazer e nós só podemos incentiva-la a seguir os seus sonhos: viver em Singapura ou na Europa.

Com amor,
Marta & Bagagem

16 de Novembro de 2018

Ao som de Arcade Fire – Neighborhood

2 Replies to “Vizinha”

  1. Muito bom, pessoal. Adorei ler! Vamos ficar atentos às futuras publicações, vai nos ajudar para os próximos meses ? Continuação de boas viagens!

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