No norte tínhamos duas opções: a província de Ha Giang e a província de Lao Cai. As duas fazem fronteira com a China na parte mais a norte do Vietname.

Como “guardámos” tempo, fomos a ambas. Era o que queríamos, tempo nas montanhas.

Chegámos à primeira cidade e imaginámos uma coisa com muito pouca gente, vila pequenina. Mas a verdade é que há quase 100 000 000 habitantes no Vietname, por isso é normal que haja “multidão” em todo o lado.
As vilas e cidades acabam por ser muito similares, as mesmas publicidades, placas e avisos. Quem já cá esteve creio que percebe o que estamos a dizer: placas informativas, publicidade de restaurantes, cafés e mini mercados, assim como os menus, provavelmente todos feitos no mesmo designer – por todo o Vietname. Conseguimos, numa rua, percorrer três ou quatro restaurantes (diga-se tascas de street food) e os menus são os mesmos. Literalmente iguais: opções de comida, tipo e tamanho de letra, cor, preço. Uma coisa é certa, a concorrência não é desleal.

Íamos pernoitar uma noite por ali para na manhã seguinte seguir pelo loop das montanhas de Ha Giang.
O loop é um percurso de vários dias por estradas na montanha onde conseguimos vislumbrar as paisagens, grandes ravinas, colinas, campos de arroz, vilas, parar no tasco mais local, e ter contacto com algumas minorias étnicas na forma mais pura sem tentar interferir com a sua vida.
Existem 54 minorias étnicas reconhecidas pelo governo vietnamita, todas com o seu próprio idioma e um modo de vida característico espalhadas por todo o território mas uma grande parte concentração no Norte.

Alugar uma mota era o plano inicial. Deixar as mochilas no Hostel e ficar a pernoitar três ou quatro noites nas pequenas vilas pelo caminho. Durante o primeiro dia, andámos a averiguar preços, roteiros, mapas e qual não é o nosso espanto quando, em todos os lugares onde alugam motos (à exceção do hostel onde estávamos que parecia ser tudo super na boa) nos pediram a carta internacional. Que raios?! Nunca tal.
Alugámos mota muitas vezes por estes lados e este pedido era novidade, por vezes nem passaporte requerem. Entrámos em contacto com grupos do Facebook, e parecia ser novidade para todos. Tínhamos lido tanto e nem uma informação sobre isto na Internet, fizemos oito horas de autocarro para nada?

Percebemos que a lei estava apenas a ser aplicada desde o início do mês de Novembro, depois da morte de três turistas que conduziam moto pelo loop. O governo e a polícia apertavam agora o cerco e as pequenas empresas de aluguer pagariam uma coima também. Levámos estas informações a sério porque não é costume a (maior parte da) gente do Vietname não tentar fazer dinheiro connosco.
Daquilo que nos informámos com os locais, as consequências de não ter carta internacional neste local específico eram: ser mandados parar nos recentes postos de controlo à saída da cidade ou durante caminho; multa de 1.000.000 Dong (cerca de 38 euros); mota apreendida.
Então, perdíamos o dinheiro do aluguer, do combustível, ficávamos sem fazer a volta e ainda pagávamos uma multa? Não pareceu uma boa opção para quem tem um budget curtinho.

Ainda assim não estávamos convencidos e queríamos arriscar. Sei lá, pensámos sair de madrugada, usar uma máscara e até calçar chinelos com meias para nos confundirem com os locais.
No entanto, quando voltámos ao hostel estavam mais quatro pessoas na sala de convívio a debater o mesmo assunto. Juntámo-nos à conversa com aqueles, até então desconhecidos, e discutimos hipóteses.
Alguém teve a mirabolante ideia de alugar um carro e partilhar os custos por todos. Contactámos várias companhias para nos levarem num Jeep, tendo em conta que ir com um motorista (neste caso dois) de mota não era para o nosso bolso – esta opção é recente, desde que foi aplicada a lei e fica um balúrdio.
Depois de uma hora conseguimos negociar o preço de um carro para seis, com combustível incluído, por três dias, por 34€ por pessoa. Não era um valor descabido e aceitámos. É importante referir que o preço começou em 60€ para cada um.

Dia seguinte: dois portugueses, um italiano, um canadense, uma argentina e uma australiana entraram no Thom Mobile, como ficou batizado.
O nosso condutor foi um Vietnamita, chamado Thom, da nossa idade mas que aparentava ser bem mais velho. Não falava inglês mas entendemo-nos sempre. O que nos chamou mais a atenção nele foram as unhas. Não, não é aquela unha do mindinho para tirar macacos ou a cera dos ouvidos, é toda uma mão, em cada braço, cheia de unhas do mindinho sabe lá deus para quê.

Seguimos entusiasmados e os três dias seguintes foram de partilha, de muita coça naquelas estradas de curva e contra curva, subidas e descidas onde íamos trocando de lugares a cada paragem para esticar as pernas.

 

Ao longo do caminho observámos os vales e montanhas completamente esculpidos pela mão humana, com escadarias infinitas de campos de arroz que por esta altura já foram colhidos. Não deixa de ser impressionante.

 

Vimos o bonito rio que separa Vietname da China e chegamos a um ponto onde há uma vedação que não pode ser transposta porque do outro lado tem uma carrinha chinesa com uns marmanjos prontos a disparar caso alguém ouse passar aquela linha imaginária. Na verdade não sabemos se é bem assim mas também não quisemos arriscar.

De cima dos montes vemos aquelas casinhas de bambu, madeira ou com cor de cimento, em lugares que não lembra a ninguém de tão afastadas da estrada que estão. O horizonte está tão longe que perdemo-nos em pensamentos com a imensidão deste lugar, do mundo e da sorte que temos por estar a vive-lo.

 

Parámos em mercados locais, e o mais genuíno e igualmente chocante até o dia de hoje, foi na manhã de Domingo na pequena cidade de Yên Minh. Um mercado sem turistas onde os Hamong, com roupas coloridas e os Giao, com roupas pretas e muitos adereços cor de prata, vendiam de tudo e mais alguma coisa. Frutas, legumes, roupas, utensílios a casa, telemóveis, animais… Os animais são transportados como simples coisas, em sacos, pelas pernas e das mais cruéis formas. Não podemos criticar, a nossa realidade é ver pedaços de carne no talho sem nunca assistir ao processo de vida de um animal num matadouro. Mas que dói na alma, dói.

 

Ao longo dos três dias cruzámos caminho com estas etnias nas suas atividades diárias, desde a colheita, plantação, tecelagem e pastorícia. O que mais nos surpreendeu foram os locais remotos onde fazem as plantações de arroz e a forma extraordinária como carregam tudo às costas sob subidas íngremes e caminhos que parecem não ter fim. Muitas mulheres com os seus cestos de plástico, que noutros tempos foram de verga e crianças também. Molhos de lenha, erva, algum arroz que restou da colheita, e vegetais.
Os búfalos na estrada, algumas cabras, e um modo de vida completamente rural.  Cruzámos- nos com poucos turistas ao longo do caminho.

 

No total foram cerca de 360 quilómetros, e nunca na nossa vida vimos tantos miúdos juntos. A brincar na beira da estrada, nos mercados, nas aldeias, em miradouros onde sabem que param os turistas e onde incrivelmente não nos tentaram vender nada.
Assistimos àquilo que nos corrói: miúdas com os trajes típicos e cheias de maquilhagem para pousar para fotos. Em um ou dois pontos vendem coroas de flores. Outros trabalham no campo com os pais. A realidade destes miúdos é diferente da nossa, mas tal como nós comem montes de guloseimas, brigam com os irmãos mais novos e muitos brincam com smartphones. Parecem felizes.

 

As mulheres Hmong (etnia maioritária por estas bandas) fazem todas as suas atividades diárias com os mais pequenos às costas. Assim que sabem andar chão com eles e os mais “velhos” tomam conta uns dos outros.

Por vezes, não é fácil captar em fotos todos estes momentos porque muitas pessoas ficam com olhar reprovador. Ficam guardados nas nossas memórias e tentámos partilhar convosco o que conseguimos sem desrespeitar ninguém (ver galeria).

Também há outros lugares, os ditos de paragem obrigatória, onde nos pedem dinheiro por uma foto num campo florido entre outras coisas. Poderíamos pagar, são valores irrisórios mas não o fazemos. Compactuando com isto, acreditamos que daqui a uns anos para respirar temos de pagar uma taxa por cá.

 

No final de contas, tivemos sorte com o condutor que nos comprou frutas, cana de açúcar, mostrou plantações de erva, usadas para a tecelagem e não para fumar como todos pensavam. Tivemos sorte com o grupo, estivemos em sintonia e divertimo-nos juntos. Tivemos sorte com a meteorologia, pois só no último dia esteve um nevoeiro que não nos permitiu ver nada. E tivemos sorte em não ter ido de moto porque nestes três dias passámos por dois postos de controlo. Ficámos felizes por o universo conspirar a nosso favor.

Atenção: se alguém estiver a ponderar fazer o Loop de mota, sem a carta internacional e quiser arriscar, não é o fim do mundo. Nós não queríamos desperdiçar dinheiro e tivemos a oportunidade de escolher outra opção. Para poder caminhar por uns trilhos e não andar apenas de carro o aconselhável seriam cinco dias.

 

Não deixem de visitar a cascata que está mesmo perto da cidade de Ha Giang e de comer os spring rolls frescos feitos por vocês. Por estas bandas não há grandes opções de restaurantes por isso o conselho é arriscar nas tascas locais, nunca esquecendo o mito de que os vietnamitas comem cão.
Continua…

Com amor,
Marta & Bag

20 de Novembro de 2018

Ao som de Bob Dylan – Blowin in the wind

One Reply to “Ha Giang – Pelas montanhas”

  1. “pensámos sair de madrugada, usar uma máscara e até calçar chinelos com meias para nos confundirem com os locais.” O que uma pessoa pensa em fazer só para poupar uns € e fazer coisas incríveis! ?
    Gostei muito e fico feliz por acharem uma solução e poderem ver as minorias com novos amigos. Amizades em viagem são coisas que adoro! Sei lá, parecem diferente das amizades que fazemos em ‘casa’

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