Sa Pa, a tal, a falada, exuberante.

Sa Pa, a cidade turística no meio das montanhas que ainda assim se revelou mais agradável do que prevíamos.
Quando dizemos agradável, não falamos da temperatura.

Ponderámos chegar e fazer umas caminhadas pelas aldeias pelo nosso próprio pé, mas fomos desencorajados no posto de turismo assim que perguntámos por mapas e trajectos. A resposta é a mesma de outros locais: “é perigoso e tem de se ir com guia”. Só queríamos testar. Porque dá sim, apesar da informação escassa.
Sabemos que pagar um destes trekking é uma forma de contribuímos para o desenvolvimento das comunidades e alinhámos no de dois dias (20Km) com dormida numa homestay.

As guias são todas mulheres com um inglês exemplar, maioritariamente da etnia Hmong com os seus cabelos longos soltos, ou enrolados em volta da cabeça presos com um pente cor de prata. Fáceis de distinguir pelas roupas, que apesar de similares aos trajes usados em Ha Giang, por cá usam mais adereços.

O percurso é feito entre em aldeias, montanhas completamente rodeadas por escadarias infinitas de arrozais, búfalos, galinhas, crianças (tantas crianças), bambu, indigo, plantações de milho, pequenas  e grandes cascatas. Às vezes temos de deixar passar uma ou outra vaca ou descer de rabo para não cair.

Por estas montanhas vivem oito etnias diferentes, em comunidade e maioritariamente católicas. Uma das atracções principais da cidade é uma Igreja, comum às nossas. A explicação que a nossa guia nos deu para o crescimento do catolicismo por estas bandas, foi a de que, quando alguém está doente ou a morrer o padre vai a casa e não cobra nada, enquanto os monges pedem muito dinheiro pelas orações.
Provavelmente, a colonização e outros fenómenos contribuíram para que o budismo esteja em segundo plano, mas este motivo é o que se mostra válido para aquelas comunidades, pela boca da nossa guia.

Referente a outras etnias, vimos pela cidade e ao longo das caminhadas, mulheres e crianças com uma marca na testa, outras que rapam metade da cabeça e têm um barrete parecido com o do pai natal. Os homens não os conseguimos distinguir e não nos cruzámos assim com tantos ao longo do caminho.

No primeiro dia de trekking, um sol abrasador serviu para que as paisagens tivessem ainda mais bonitas, no segundo dia o nevoeiro tornou tudo mais místico e lamacento.
Se o solo estiver molhado é tudo muito escorregadio, porém para as senhoras que nos acompanham, com os seus cestos de verga cheios de tralhas às costas isto é canjinha.
No dia de sol, com os chinelos de plástico branco encardido que se vêm às paletes por estas bandas, no dia de lama com uns botins de borracha. E nós com as nossas super botas XPTO de sola vibram a deslizar por todo o lado.

Estas mulheres – a mais velha tinha 75 anos – fazem isto desde que há turismos por cá, e o seu ganha pão é acompanhar o estrangeiro durante mais de 10 km e no fim pedir encarecidamente que lhes compremos algo. Ao longo do caminho dão – nos a mão, fazem bonequinhos com bambu e algumas usam esses argumentos quando lhes dizemos que não queremos comprar nada.
Esta é a parte mais aborrecida, pois ficam insistentemente a tentar vender coisas umas atrás das outras.
De facto tem coisas muito bonitas, a maior parte tingida de indigo – planta que vimos muitas vezes pelo caminho e confere aos tecidos uma tonalidade de azul forte – mas é mesmo impossível adquirir uma coisa de cada uma.

Na homestay no meio de nenhures e algures ouviam-se as rãs lá fora e o bicho da madeira a roer determinado aquela casinha tão gira. A comida do jantar estava divinal, e a happy water – bebida equiparada ao nosso bagaço, feita de arroz ou milho – apesar de fraquinha deu para aquecer na noite gelada que se fez sentir. O nosso grupo era de sete e passámos o serão a jogar ao “buraco do cu”, que pelos vistos é um jogo bastante internacional.

Como em todo o lado.,o mais difícil de digerir são os miúdos. Frio de rachar e andam semi nus ás costas das mães (algumas delas não têm mais de 16 anos), às costas uns dos outros. Vendem pulseiras, bolsinhas e tudo o que possam imaginar. Estes sim, têm um ar triste e não lhes conseguimos arrancar sorrisos.
Questionamos – nos:
Efeitos do turismo em massa?
Se não houvesse turismo por estes lados, a maior parte das minorias étnicas ainda estariam representadas?

Nos outros dias ponderámos subir à montanha mais alta do Vietname, Fan Si Pan (3143 m), mas o nevoeiro nem nos deixou ver sequer o sopé. É aqui que está o mais longo e mais alto teleférico, com dois recordes do Guinness. O preço são uns módicos 36$ por pessoa e é preciso escolher um dia de sol para observar as paisagens lá em baixo. Nós não fomos, pelo preço e pelo nevoeiro cerrado durante os dias que por lá tivemos, mas conhecemos quem o fez em dias de sol e adorou a experiência.

O frio nestes dias era de rachar e depois de viver um verão em pleno durante os últimos, quase 6 meses, fomos obrigados a comprar uns casacos e dormir com tudo o que tínhamos para vestir.
A melhor época para visitar Sa Pa é entre Abril e Maio, quando as temperaturas estão mais amenas e os campos de arroz estão verdejantes. Nesta altura já tinham sido colhidos.

Apesar de tudo ser contraditório, foi uma das uma das zonas mais bonitas por onde estivemos e tinha castanhas assadas que souberam a casa.
Como em todo o país, merecia mais proteção e um desenvolvimento sustentável porque há uma construção massiva de hotéis e resorts e parece não ter fim à vista.

O Vietname foi de facto agridoce.
Quase no fim fizemos as pazes e não trocariamos as experiências vividas por outras.

O Norte é lindo, “percam tempo no norte”, disseram-nos tantas vezes, e com razão.

Com amor,

Marta & Bag

25 de Novembro de 2018

Ao som de Rodriguez – I wonder

2 Replies to “Sa Pa – Entre as Nuvens”

  1. Neste caso o turismo é bom e mau. Sei de uma pessoa que também fez o trekking (no caso 3 dias) e que o preço é razoável para nós mas que é óptimo para ajudar estas minorias étnicas. Ainda para mais quando o impacto dos turistas no trekking é pouco, nada de carros, poluição… Por mais iniciativas assim ❤

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