Assim que passámos a fronteira, o calor apoderou-se das nossas peles.

Antes de fazer o visto, o autocarro pára ainda no Vietname e levamos com um carimbo entre empurrões, gritos e não sei mais o quê, para dar saída oficial do país. Os estrangeiros começam por fazer uma fila e as coisas até funcionam, até chegar um autocarro de locais e as estribeiras se perderem. O truque é só um, atropelar e não deixar ninguém passar à frente. Porque ou atropelas, ou és atropelado.
Neste ponto, uma rapariga que vinha no nosso autocarro, passou por uma situação super desagradável. Fez o visa online e, por esse motivo, só poderia dar saída do país em determinadas fronteiras, ou seja, depois de uma viagem de mais de doze horas, a solução que lhe deram foi voltar para trás e deslocar-se até outra fronteira. Nós também não sabíamos disto e, por acaso, não fizemos o e-visa porque não funciona para portugueses que querem entrar/sair por terra. Por isso, malta, antes de fazer o visto (que para o Vietname é necessário fazer com antecedência) informem-se bem: ninguém quer chegar à fronteira e ter de voltar para trás.

Andamos mais uns valentes quilómetros pela terra de ninguém naquele autocarro atolado de todo o tipo de coisas, incluindo galinhas. Tal como no Camboja, aqui, os autocarros fazem serviço de entregas ao domicílio.
Finalmente, chegámos a uns edifícios para fazer o real visto para Laos.
Aqui (nos países que fizemos, no geral) nunca ninguém explica nada, é seguir a maré. Já tínhamos lido e sido avisados que aquilo de fazer o visto é uma confusão e paga-se mais do que a conta.
O valor afixado pelo visto de um mês em Laos é de 35$, metem um autocolante e um carimbo e passamos para a próxima “janela” – daquelas comuns em vários serviços onde temos de nos baixar para ver as pessoas – na próxima há o preço afixado de mais 2$ (20 000 Kip) para a taxa do “não entendemos”, a seguir mais 3$ para taxa de fim de semana (sério!), e é assim durante mais 2 ou 3 janelas.

Óbvio, que a Marta barafustou mas os senhores não se manifestam muito interessados. O último ponto é o mais divertido e na verdade rimos à gargalhada. Pagámos 10 000 Kip (1$) para nos medirem a febre com um equipamento muito à frente que se encosta à testa. No final de contas, pagámos 44$ por visto. Mais 9$ do que o suposto.
Já ouvimos versões de pessoas que se recusaram a pagar e, passado umas horas, tiveram o passaporte de volta e seguiram caminho, e também já nos disseram que não há outra forma de o fazer porque apesar de toda a gente saber que aquilo é treta, os preços estão afixados.

No meio desta trapalhada toda, uma outra rapariga tentou pagar com os dólares que tinha trocado antes e, porque a nota não era nova e tinha um rasgo microscópico, não a aceitaram.
Estar no meio de nenhures, sem conhecer ninguém e não ter dinheiro, ou melhor ter, mas não o conseguir usar, pode ser um bocadinho stressante. Fizemos uma vaquinha entre cinco com o que nos restava e conseguimos pagar o visto e todas as “despesas administrativas” associadas.
Fora deste filme lá seguimos por mais umas horas no autocarro a cheirar a cocó de galinha, vomitado, entre outras coisas, mas a vislumbrar as montanhas verdejantes por entre curvas e contra curvas deste nosso mais novo “Laos”.

Primeira paragem: Muang Khua. Uma pequenina vila onde a vida corre devagar e os dois únicos multibancos não funcionam. A nós ainda nos restavam 7$ e mais os 11$ que usávamos para a vaquinha, mas não nos podíamos dissociar do resto do grupo porque queríamos o nosso dinheiro de volta.
Queríamos apanhar o barco para outra vila mas não tínhamos dinheiro e também já não havia mais barcos (só na manhã seguinte), queríamos comer mas não tínhamos dinheiro suficiente para os cinco (solidariedade de backpackers), nem para dormir porque os muito poucos locais que há, só aceitam dinheiro.
Tudo esganado de fome e umas bolachas e nozes sabem à vida.
Voltas e mais voltas, um dos multibancos funcionou por momentos. Yeh! Lá conseguimos levantar dinheiro.
Em Laos é bastante fácil de converter: um euro = 10 000 Kip.

Fizemos a melhor refeição de sempre e acabámos por vir para a mesma Homestay que os outros três comparsas (Índia, França, Holanda).
Estamos surpreendidos com a qualidade da comida até agora, comparando com o último mês no Vietname. A Happy Water é bem mais forte. Os miúdos alinham nas brincadeiras. Da vista da nossa janela vemos o rio, coqueiros e as montanhas.

Já gostamos deste lugar.

Com amor,
Marta & Bag

27 de Novembro de 2018

Ao som de Dead Combo – Povo que cais descalço

2 Replies to “Welcome to Lao”

  1. Opa faz me lembrar a Índia… Vamos para pagar compras em supermercados e não aceitam porque são notas velhas… E vais a ver são as notas que nos deram ontem de troco (e as vezes no mesmo. sitio) ? estes gajos…

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