Passámos nove dias nesta cidade, a maior parte deles no Happy Hostel onde fomos bastante felizes.

Conhecemos malta que também estava por mais tempo, aproveitamos para fazer exercício, por leitura e escrita em dia (nunca está), programar os próximos passos e finalmente comprar os malditos voos para as Filipinas, que de dia para dia não pararam de aumentar de preço.

Deu para tudo e acreditem que mesmo que inicialmente parecesse muito, não foi demais.
O facto de estarmos a precisar de parar um pouco num lugar e fazê-lo ser a nossa casa também ajudou.
Esta cidade está recheada de templos: são mais de quarenta e cinco. Casas com arquitectura francesa, que remetem para o passado colonial e lhe dão um certo charme e por isto património mundial da Unesco.
É, no geral, uma cidade limpa e com pessoas simpáticas.
Está rodeada por dois rios, o Mekong e o Nam, envolta em coqueiros e montanhas. As pessoas são prestáveis, sorridentes e conseguimos comida boa a preços bastante simpáticos, contrariamente ao que nos disseram tantas vezes.

É bom caminhar por lá e ver o pôr-do-sol às margens do rio, longe do ponto mais alto que a essa hora está completamente minado de turistas sedentos pela melhor foto.

Os mercados matinais em Laos são do mais hardcore que vimos e o de Luang Prabang não é a excepção. É preciso acordar bastante cedo para encontrar por lá iguarias como: ratos, com pele e sem pele, fica ao critério do freguês; morcegos; esquilos; larvas; entre outras coisas que não estamos habituados a ver, nem a comer.

Todos os mercados são super coloridos, umas bancas super organizadas e outras um quanto ou tanto caóticas. Sujos, e com cheiros que por vezes nos fazem querer voltar para trás.
Os mercados são uma excelente forma de conhecer a cultura de um país, novos alimentos e ajudar na economia local.

Por outro lado, o mercado nocturno estava todo ele repleto das mais diversas coisas direccionadas para o turista. Feitas à mãos muitas delas, outras importadas da Tailândia. É bom deambular, comer uma panqueca e beber um sumo de frutas.
Apetece comprar tudo, porque são coisas lindas, mas há que controlar o impulso natalício. Não precisamos de nada e as nossas pequenas mochilas rebentam pelas costuras.

Outra das coisas para a qual sabíamos que deveríamos acordar antes das 6h da manhã, era para assistir a um dos rituais budistas mais místicos: a ronda das almas, ou simplesmente a recolha de comida por parte dos monges de madrugada.

Ainda nem tínhamos saído do hostel já nos estavam a impingir as cestinhas típicas de arroz.
E assim que chegámos à rua principal, percebemos que aquele ritual místico que tínhamos vivido, mesmo sem querer, na primeira pessoa na Tailândia, aqui tratava-se mais de uma atração turística do que outra coisa.

Rua cortada, chineses aos pontapés, muitas senhoras a vender aquilo que percebemos ser só arroz e filas infinitas de bancos para os estrangeiros participarem.
E os locais? As verdadeiras oferendas, a reza, o silêncio? Percebemos depois que acontecia em paralelo numa rua atrás.
Os estrangeiros querem tanto contribuir que para além de não se informarem sobre o verdadeiro sentido deste ritual, acabam por comprar o que lhes vendem (arroz) e por colocar uma colher em cada uma das taças dos noviços.
Será que os monges só comem arroz? Não! Óbvio que não.

Analisámos aquela situação toda, bem discretamente do outro lado e esperámos pelo fim da azáfama.
No fim lá estavam, caixotes e caixotes do lixo a transbordar de arroz branco. Aquele mesmo que as senhoras venderam, os turistas compraram e os monges aceitaram.
A observação deste pedaço de ritual faz-nos questionar muito sobre os efeitos do turismo.
É um assunto que dá pano para mangas (entre tantos outros), e vamos querer desenvolvê-lo quando tivermos mais conhecimentos de causa na nossa bagagem.

Num outro dia, fizemos uma massagem na cruz vermelha de Laos e no mesmo local partilhamos a sauna com locais.
Foi uma experiência engraçada, a de vestir aqueles bocados de trapo, entrar numa sauna completamente escura e atolhada de gente e esperar que a porta bem artesanal não deixasse de abrir por algum motivo. Éramos os únicos estrangeiros por lá e fomos alvo de muitos sorrisos mas também de muita estranheza.

Guardámos o melhor e o pior para os últimos dois dias.
Estávamos à espera de um dia abrasador de sol para ir às cascatas, mas esse dia de verão não apareceu.
Alugámos uma moto e fomos como o intuito de passar o dia no postal de Laos – Kuang Si Fall. As paisagens até lá valem a pena e a cascata é incrivelmente mais bonita do que nas fotos.

Entrámos pela entrada no maps.me (melhor aplicação para viagens) que dizia “free entrance to waterfall”.
Como bons tugas que somos não podíamos perder a oportunidade de poupar 4€. Basta virar no caminho de terra antes e chegasse com bastante facilidade.
Começámos deste modo, de cima para baixo. Água limpa, muitas árvores e vegetação e pouca gente.
A descida pode ser dura, mas chegando lá a baixo o tamanho e a coloração azul turquesa impressiona, mesmo sem o sol a brilhar.
Esta bonita cor deve-se aos minerais presentes na água, como calcário em grandes quantidades.

Lá em baixo já há muito mais turistas. Muitas poses, biquínis, triquinis coloridos, cabelos longos e chinesas loucas.
Nas primeiras “lagoas” pode tomar-se banho. O tempo não estava frio, mas não convidava a grandes mergulhos e sem coragem não chegamos a molhar as cuecas.

Pelo caminho na volta, furámos duas vezes os pneus, onde na segunda vez tínhamos dois furos na mesma câmara de ar.

Um azar do raio, no meio da sorte de não estarmos assim tão afastados de umas espécies de oficinas e termos uma boleia pelo meio.
Estivemos a pé das 15:30 até às 20 horas. Sem telefone, sem gente a falar inglês e a pedir por amor da Nossa Senhora dos Pneus que contactassem o dono da loja de aluguer para ver se devíamos de trocar a câmara de ar ou apenas encher.
O preço para nós foi inflacionado para o dobro, mas entre muitas negociações e horas de espera finalmente conseguimos pôr-nos a caminho e a loja suportou os custos dos dois furos.

Ficou de noite num instante e acabámos por não visitar a outra cascata.
Em contrapartida, tivemos bastante contacto com as actividades diárias dos locais pois esperávamos nas suas oficinas/casas enquanto lentamente nos punham a mota operacional para andar.
Os miúdos ficavam em redor da fogueira que queima o plástico que é produzido durante o dia. Inalar aquele fumo não é a coisa mais saudável do mundo, mas os garotos divertem-se a juntar os pedaços meio queimados e vê-los arder na fogueira.

No dia seguinte, o nosso último neste país maravilhoso, caminhámos vários quilómetros pelo outro lado da ponte para ver a aldeia onde se produz papel através das plantas.
Tínhamos também como segundo objectivo encontrar um cabeleireiro para a Marta pintar o cabelo.

Ir a um cabeleireiro em Laos é uma mescla entre momentos de puro prazer e pura tortura. Pintar não custou. A parte difícil foram as duas lavagens antes e as três depois.
Ficou aquela sensação de couro cabeludo em sangue e cabeça muito dorida.
No meio de massagens no pescoço, nas sobrancelhas e maçãs do rosto, haviam umas chapadas na testa e uns socos na cabeça. Um esfregar incessante de unhas, umas mangueira de água bem potente e gelada. Caramba. Pensei que ficava sem cabelo e sem cabeça.
É importante referir que isto não se trata de uma selecção de movimentos aleatórios: é toda uma ordem e um número de repetições que dado o tempo de tortura consegui contar.
Foi duro, mas talvez tanto puxão seja a razão para cabelos com aspecto tão saudável em Laos.
O meu por enquanto está preto, mas aspecto saudável nem vê-lo.

De “cara” lavada, estamos entusiasmados por conhecer o Myanmar.
Laos já ficou com um lugar especial no nosso coração.

Com amor,

Marta & Bag

18 de Dezembro de 2018

Ao som de Crystal Fighters – At home

One Reply to “Luang Prabang – Uma semana na nossa nova casa”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *