Meias quentinhas no pés, um sol morno a dar o ar da sua graça, pequeno-almoço tomado e estávamos prontinhos e mortinhos por começar o treeking de dois dias da gelada cidade de Kalaw até ao famoso Inle Lake. Os nossos rabos estavam doridos de tanta hora em transportes dos últimos dias e precisávamos mesmo de os pôr a mexer.
Devido à limitação de tempo apenas fizemos a caminhada de dois dias, mas há opção de três e talvez mais.
Só levámos o essencial, as mochilas ficaram no hostel até serem recolhidas por alguém e foram devidamente entregues no hostel onde ficámos na cidade de Nyaungshwe, nos arredores do Inle Lake.

Ansiosos, juntámo-nos ao nosso grupo para irmos numa carrinha de caixa aberta até ao mercado na aldeia seguinte, onde nos encontramos com o nosso guia. Antes da partida tivemos tempo de explorar o pequeno mercado local e comer umas quantas coisas estranhas, mas deliciosas.

O caminho começou entre pequenas aldeias e muitos campos de malagueta. Tivemos oportunidade de ver as pessoas a colher e escolher as malaguetas que se encontravam a secar nas eiras às portas de suas casas.
Metem-se connosco, nós metemo-nos com elas. Estávamos ali a passar mesmo às suas portas, como intrusos curiosos, mas com muita naturalidade e boa disposição fazem as suas actividades diárias sem se incomodar com a nossa presença.
Ali não há fogões, as coisas são cozinhadas ao lume, cheirava a lenha queimada e havia pequenas chaminés de fumo por todo o lado.

Que sorrisos, que simpatia. Os garotos são mais tímidos. Tão surrentos, tão genuínos. Aquela ranhoca no nariz, já seca, fruto de mães atarefadas que não podem estar em cima do acontecimento. Lá a teoria continua a ser a mesma, mais velhos cuidam dos mais novos. 

Brincam com o que a terra lhes dá, são tantos e já maiorzinhos, e questionamo-nos se há escolas por ali. Dizem-nos que sim, mas nem todos vão pois fica longe e dispendioso.
Normalmente, temos sempre uns rebuçados na mochila e a timidez inicial passa-lhes rápido. Os garotos multiplicam-se à nossa frente, e os rebuçados desaparecem.

“Mingalabar, Mingalabar” – gritavam. Respondemos na mesma moeda.

Os caminhos que percorremos são os mesmos das vacas, das poucas motorizadas e dos escassos tractores. Há alturas em que caminhámos por montanhas e vales longe de qualquer actividade humana. 

Terra fértil, terra seca, terra de um vermelho cor de fogo… Terra de plantações de gengibre, arrozais, rios de água fria e clara. Búfalos, vacas, cães, muitos cães.

O sol estava a pôr-se quando chegámos àquilo que por lá chamam de Mosteiro. Um edifício grande de madeira, com um campo de futebol improvisado à frente, onde mais de 15 pequenos monges jogavam futebol com estrangeiros de outros grupos que também iriam pernoitar por ali. Uma imagem invulgar, no entanto muito feliz. 

“Mingalabar”, repetem assim que nos vêm chegar.
Antes de qualquer brincadeira, ponderámos ir tomar um banho, contudo assim que demos de caras com um balde, um tanque com água muito turva, e uma noite gelada, mudámos de ideias e pensámos “deixa estar que fica para amanhã”.
As camas ficavam dentro do mosteiro, com cobertas muita fofas mas que não serão com certeza lavadas de cada vez que um grupo diferente lá dorme. Estamos bem melhores dos nossos transtornos com limpezas e arrumações, mas há coisas que no nosso inconsciente ainda nos continuam a incomodar.
Antes do jantar, descansámos o corpo e ouvimos os miúdos nas suas orações. Depois do jantar esses mesmos miúdos, anteriormente tão disciplinados, juntam-se em volta de uma televisão a ver o Tom & Jerry, onde brigavam pelo melhor lugar. Apesar dos trajes e cabeças rapadas, não passam de crianças irrequietas.

Acordei com o som das preces, ainda nem o sol tinha nascido. O Bagagem madrugador foi com o guia e com o alemão, ver o nascer do sol na montanha que ficava por de trás do Mosteiro, onde fizeram uma fogueira naquela manhã gelada.

Se há coisa que não nos podemos queixar, foi das refeições. A base da alimentação continua a ser a mesma, mas muito bem confeccionada e aquele pequeno-almoço estava divinal.
O chá é servido a toda a hora, por todo o Myanmar, em tacinhas muito pequeninas. Um sabor intenso, qualquer coisa similar a chá verde.

Era hora de partir para o segundo dia de caminhada, mas antes despedimo-nos dos pequenos monges, que iam à vez ao mini mercado mais próximo comprar guloseimas.
Não sabemos quem lhes dá o dinheiro, quem os sustenta, como tudo isto funciona. Soubemos que nem todos serão monges futuros.

Enquanto crianças muitos destes rapazes, que essencialmente provêm de famílias mais pobres, vêm passar temporadas nos Mosteiros que lhes fornecem formação gratuita e educação religiosa. Alguns acabam por abraçar este modo de vida, mas compreensivamente a grande maioria acaba por abandonar. O nosso guia, aquando miúdo passou 45 dias neste mesmo mosteiro.

O calor já se fazia sentir.
No total dos dois dias, fizemos cerca de quarenta quilómetros, sendo os terrenos mais acidentados os do segundo dia. Houve momentos em que nos queixámos das pernas, mas quando olhámos para o lado e demos conta de gente a lavrar imensos campos de arroz com a ajuda de um búfalo ou a colher cana de açúcar com os bebés às costas, o queixume perdeu voz.
As paisagens do segundo dia foram ainda mais bonitas….

Chegámos para o almoço naquela que seria o fim do caminho por terra, bem picante para nos lembrar o porquê de tanta malagueta no caminho.
O nosso guia ficou para trás. Tinha 18 anos apenas, um inglês fraco mas esforçado. Fizemos – lhes perguntas o caminho todo: sobre a vida, a agricultura, território, hábitos. É surpreendentemente filho único, e anseia tornar-se um melhor guia para passar dos seus 200 dólares mensais. Fuma muito, como grande parte dos birmaneses, pois a cultura do tabaco está bem adjacente neste povo. Anda sempre com uma fisga na mochila, para caçar o que lhe aparece pela frente.

Estávamos super felizes por estes dias, mas ainda não tinha acabado. A maior recompensa por termos chegado ao fim, foi um passeio de barco cheio de surpresas, que não contávamos ter. 

Andámos pelos canais rodeados de vegetação que se abre à passagem do barco e vimos de perto as impressionantes plantações flutuantes, onde o tomate é rei. As pessoas colhem, e cuidam destes campos ajoelhadas em cima de barquinhos. Foi das coisas mais únicas e bonitas que tivemos oportunidade de observar.
Passámos pela principal vila flutuante do lago Inle, onde o rio continua a ser máquina de lavar, lava-loiça, chuveiro. Aqui não há carros, há pequenas jangadas e já se avistam mais barcos barulhentos com alguns turistas.
Parámos nas lojas de adornos de pratas, comuns nesta zona do Myanmar, onde observámos o processo de moldagem. Entrámos nas lojas de souvenirs, onde estão as senhoras com os longos pescoços adornados de anéis pesadíssimos, a pousar para as fotos dos turistas.
No fim, já mesmo a chegar perto do porto, ainda conseguimos ver em contraluz os pescadores equilibristas.
É uma imagem bonita de facto, e não é tarefa fácil o equilíbrio de apenas um pé num barco que oscila com leve ondulação, no entanto estes senhores já não ganham a vida com o pescado mas com as gorjetas e pagamento do estado para se manterem ali como atração.

Toda a zona do Lago Inle, como Bagan é concessionada e é necessário efectuar o pagamento num dos postos de controlo muito antes de lá chegar.
O Lago Inle tem 116.3 Km², e ao seu redor dezenas de aldeias e muita vida a acontecer. A pequena cidade onde ficámos foi sem dúvida a zona com maior concentração de turistas onde tivemos, mas nada comparável aos outros países do Sudeste Asiático.

Os últimos dias foram realmente intensos, aprendemos imenso, caminhamos imenso, perdemo-nos de bicicleta por campos e aldeias com gente linda, comemos bem, tivemos desconectados da Internet, vimo-nos gregos para arranjar transporte de volta para Yagon por causa das férias e do fim do ano, e um de nós fez uma tatuagem tradicional.

Um impulso de última hora, quando demos de caras com uma casa que tinha um letreiro à porta que dizia “Tatuagens tradicionais do Inle Lake”. Sem demoras batemos á porta e fomos convidados a beber um chá. Eu, assim que vi a agulha perdi a coragem, o Bagagem encheu o peito e sem demoras escolheu uma rosácea de um caderno com desenhos super toscos, passado rapidamente a olho e a caneta para o gémeo do rapaz. 

O tatuador não falava inglês e era o genro quem traduzia tudo. O senhor deve estar na casa dos 70 anos e diz ter 45 de experiência. Destreza tem ele.
Antes de começarmos, a agulha é esterilizada num fervedor à nossa frente, observamos que é pesada, cor de ouro e mete medo.
Na verdade, depois de alguma conversa, sofrimento, folhas de betel mascado e cuspido, chá e mais chá, percebemos que o simbolismo de grande parte dos desenhos é de sorte é protecção.
Afinal de contas não é disso que todos precisamos?
Isso e uns pozinhos de carácter, dedicação e boa fé, diria eu.

Parece que doeu, mas será sem dúvida uma recordação para a vida.

Para além desta recordação visível, o nosso coração ficou carregado delas.

Dizemos cheios de confiança que o Myanmar tem das pessoas mais bonitas que encontramos em viagem.
As pessoas merecem-nos lá, merecem fronteiras abertas ao mundo.
E nós vamos voltar, foi pouco tempo para um país tão rico culturalmente e que nos recebeu tão bem.

Com amor,

Marta & Bagagem

1 de Janeiro de 2019

Ao som de The Doors – Hello, I love you

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