A decisão de vir para o Sri Lanka já tinha sido tomada há algum tempo.
Um voo barato, visto pago, probabilidade de seguir caminho por outras bandas e milhares de elogios de amigos que por cá passaram, recentemente.
O que aconteceu dia 21 de Abril, Páscoa para os católicos, nunca mais será esquecido por este povo. Sabemos que infortúnios – não sei se lhe possa chamar assim – acontecem nos mais diversos lugares, pela mão de gente de todas as cores, feitios, crenças. Não há credo, cor da pele e convicção que não seja atingida.
Deixar de ir, deixar de fazer, é compactuar com o que esses doentes querem. Perpetuar o medo, a desconfiança, categorizar as pessoas e causar o caos.
Temos de lutar contra isso, porque como todos nos dizem por cá, “não foi um muçulmano, foi um maluco, alguém cheio de ódio”.

O Sri Lanka estava, até ao dia, a atravessar a melhor época de sempre.
Tiveram antes, uma Guerra Civil, iniciada em 1983, pelos Tigres da Libertação Tamil. Uma minoria, que durante 26 anos lutou contra as tropas cingalesas na tentativa da independência de uma parte do território. Finalmente, estes foram, em 2009 derrotados pelos militares, num conflito que acabou com 100 mil vidas. Desde então, que os conflitos religiosos/étnicos terminaram no país, ainda que com algumas arestas por limar.
Nesse ano, consegue-se um acordo de paz e as coisas começaram a compor-se.
Essa paz, levou consequentemente ao desenvolvimento do país a todos os níveis, inclusive, ao facto de ser colocado no mapa mundo como um destino turístico reconhecido e interessante. É se o é, acreditem em nós.
Ali pelo meio, ainda levaram com o Tsunami mais destrutivo de todos os tempos, naquele fatídico dia de 26 de Dezembro de 2004. Quarenta países atingidos, no total 300.000 mortes. Só no Sri Lanka, morreram 50.000 pessoas e os danos são incalculáveis.
Reerguido de guerras, catástrofes naturais, foi este ano, considerado o melhor destino turístico pela Lonely Planet.

É com um brilho nos olhos que os habitantes falam sobre os anos pacíficos que têm vivido.
Agora, depois dos ataques, os cingaleses vivem um grande período de recessão. Quase não há turistas, está tudo vazio, o povo ressente. Desde o taxista ao dono do hotel, todos levam por tabela. Nos últimos anos os investimentos foram muitos, e sem visitas não há como os manter.

 

Chegámos duas semanas após a morte de 250 pessoas entre igrejas e hotéis. Os jornais lançam esse número , pois por cá ninguém fala em menos de 500. Um dado que Governo tenta esconder para não alarmar mais a estrangeirada. A verdade é que o alarme foi dado, em todo o lado.
Caramba, aconteceu em Londres, França, Alemanha, Nova Zelândia… ninguém está safo.

Nós fizemos a nossa viagem de uma forma consciente, evitando as ditas zonas de risco – que não saberemos na realidade quais são.
Começo por dizer que nunca nos sentimos inseguros, mas nos primeiros dias havia alguma tensão no ar. Ou seríamos nós a estar tensos. É relativo.
Estava malta portuguesa por cá, e mantínhamos o contacto pelo Instagram, na tentativa de perceber se era tudo alarmismo ou se o perigo era real.
Ao longo do mês, houve quem nos perguntasse se sabíamos o que tinha acontecido e porque mesmo assim tínhamos vindo, outros agradeceram-nos por não termos desistido, outros pediram-nos para partilhar nas redes sociais que está tudo bem e outros ainda a querer muito saber a nossa perspetiva sobre o sucedido.

Por cá, são comuns as Guesthouse e as Homestays, alojamentos mais pequenos e mais íntimos, no sentido em que temos mais contacto com os donos e deste modo com a cultura local. Ficámos em casa de hindus, budistas e muçulmanos – nunca calhou um cristão porque estão mais concentrados na zona de Colombo, onde ainda não estivemos – nenhum deles demostrou ódio, mas sim compaixão por quem sofreu e esperança que não se repita.

Nos primeiros quinze dias, ou seja, quase um mês após as bombas, continuavam as rusgas, e os postos de controlo nas estradas. Foi comum, nas primeiras semanas, numa viagem de autocarro de 60 quilómetros, pedirem a identificação a todos os passageiros entre duas a três vezes. Nunca vimos ninguém aborrecido com isso, pois as pessoas estão conscientes que é para o bem de todos e uma coisa que deste lado do mundo não incomoda, é o tempo.
Temos de louvar nestes países, todos sem excepção, a simpatia das forças de segurança e autoridade, tanto para connosco como para com os habitantes locais. Aquela imagem de segurança, polícia ou militar sisudo não existe aqui.

Ao longo do tempo, damos conta que as coisas estão a voltar à normalidade. E agora, quase com o pé de fora, já não se fala no assunto como se falava ao início, já não há postos de controlo a cada 20 quilómetros, o recolher obrigatório terminou e as redes sociais foram activadas.
No entanto, ainda se sente a falta de turistas. Há dezenas de restaurantes, hotéis, lojas de souvenirs, praias, monumentos completamente vazios. Por vezes, parece que estamos num país super virgem, longe de massas turísticas, outra vezes deambulamos por vilas que parecem estar ao abandono pelo facto de estar tudo fechado.
Até ao momento, dos mais de dez lugares onde dormimos, apenas duas vezes partilhámos o espaço com estrangeiros. Dos mais de vinte transportes públicos que apanhámos, apenas três vezes dividimos um autocarro com gente de fora.
Desta perspetiva, temos a vantagem de conviver de perto com a cultura local sem o distúrbio de turistas.

Aos que perderam familiares, desejamos que o ódio não seja o rumo. Para os que têm negócios ligados ao turismo torcemos que as coisas se recomponham, mas como dizem “só o tempo” e sabemos que sim.
Nós vivemos dias de paz e de pura simplicidade, estamos felizes por ter decidido vir.
É um lugar fantástico, um jardim zoológico a céu aberto, com gente boa, comida melhor. Pode ser também um lugar desconcertante e nas próximas publicações vamos falar-vos das coisas bonitas e chatas que vivemos cá e dos lugares por onde passámos.

Deixamos-vos mais algumas curiosidades sobre o Sri Lanka:
22 milhões de habitantes.
Línguas oficiais: cingalês e tamil.
Cingaleses é o nome dado aos habitantes do Sri Lanka.
Os Portugueses foram os primeiros europeus a visitar a ilha, em 1505.
Colombo é nome da cidade mais populosa, herança portuguesa.
Colombo não é a capital. Cota, mesmo ao lado, é a capital oficial.
Hoje em dia, ainda há muitas palavras e nomes familiares portugueses, como “Perera”, Dias, sapato, sino, armário…
Com a conquista portuguesa, muitos cingaleses converteram-se (forçosamente) ao cristianismo.
Mais tarde, vieram os holandeses que com a ajuda do Sri Lanka nos derrotaram. No final das contas, são os britânicos que ficam com isto tudo e o Sri Lanka só se torna independente no ano de 1948.
Os mais antigos falam-nos de Lourenço de Almeida, o capitão que descobri o Ceilão – nome que demos à ilha – e dizem-nos que não fomos nada bons para eles.
Sri Lanka, significa em sânscrito “ilha resplandecente”, e é bem fácil perceber porquê.

 

70% da população é Budista, seguindo-se Hinduísmo com cerca de 13%.
O Islamismo e o Cristianismo não ultrapassam na sua totalidade os restantes 17% e são as minorias com as quais foram gerados os últimos conflitos no país. Dá que pensar, não?

 

Comprem a vossa viagem para cá, já. E depois leiam-nos e ganhem ainda mais vontade de voar.

Com amor,

Marta & Bag

26 de Maio de 2019
Ao som de John Lennon – Imagine

2 Replies to “O ódio não pode vencer”

  1. O Sri Lanka vale muito a pena! É o que tenho a dizer.. E se formos a pensar nos atentados e cosias nunca saímos de casa..

  2. Vocês conseguem por nos a viajar sem sair do lugar. Ao ler entramos na vossa aventura e parece que andamos com vocês para todo o lado.
    Vocês são maravilhosos.
    Beijinhos com saudade 😘

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