Quantos anos tenho?
Tenho a idade em que as coisas são vistas com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo.
Tenho os anos em que os sonhos começam a acariciar com os dedos e as ilusões se convertem em esperança.
Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama intensa, ansiosa por consumir-se no fogo de uma paixão desejada. E outras vezes é uma ressaca de paz, como o entardecer em uma praia.
Quantos anos tenho? Não preciso de um número para marcar, pois meus anseios alcançados, as lágrimas que derramei pelo caminho ao ver minhas ilusões despedaçadas…
Valem muito mais que isso
O que importa se faço vinte, quarenta ou sessenta?! O que importa é a idade que sinto.
Tenho os anos que necessito para viver livre e sem medos.
Para seguir sem temor pela trilha, pois levo comigo a experiência adquirida e a força de meus anseios.
Quantos anos tenho? Isso a quem importa?
Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e o que sinto.
José Saramago

Poema enviado pela minha querida amiga, Eduarda Damasceno.

Do meu diário:
13 de Maio – Ella – O dia do meu aniversário

Acordámos e tomamos o pequeno almoço entre esquilos a saltar de árvore em árvore e corvos a tentar roubar-nos a comida. Um dia normal por aqui. Seguimos até ao Little Adams Peak, numa pequena caminhada de uma hora, onde vislumbramos a Ella Rock, o percurso onde tínhamos estado no dia anterior. Boa conversa, uma vista brutal, fizemos a recolha de lixo, seguimos entre campos de chá, o flagelo das escadarias infinitas, miúdos curiosos e um sol abrasador.
Lá no fundo iam surgindo umas nuvens bem escuras. Sem avisar, como costume, veio uma queda de água brutal. Molhados até ao tutano, entre saltear poças e miss t-shirt molhada, esperámos umas horas no hostel sem luz, internet ou água quente.

Já eram umas três da tarde quando a chuva abrandou para almoçarmos.
O típico curry, kottu e uma dor de barriga imprevisível que me fez implorar por uma casa de banho naquele segundo. Acontece muito por cá, mas no meu dia de anos esperava mais classe.
Tudo nos conformes e andámos à procura de um sítio para fazer uma massagem.
Dia de aniversário – massagem.
Soa a perfeição.
Eu fiquei com uma velhinha com ar querido mas bruta que nem uma porta e foi fixe, mas não foi a melhor massagem da minha vida. Enquanto me “massajava” a cabeça, fez-me lembrar aquela vez em que pintei o cabelo em Laos onde quase me deformaram a testa à chapada.
O Bag saiu de lá consolado. A velhinha dele pelos vistos sabia o conceito de massagem relaxante e como aplicá-lo. Sortudo o gajo, era o meu dia de anos, leva com o mesmo presente que eu e ainda fica com a velhinha mãos de fada.

Desde manhã que não tínhamos internet e começámos a perguntar o que se passava. Ninguém nos sabia dizer e experimentar vários wi-fi não resolveu.
Num dia normal não seria um problema, mas era o 13 de Maio, sabia que a família ia ligar e que ia ficar preocupada por não ter notícias minhas.
Percebemos mais tarde que as redes sociais estão bloqueadas, mas que o e-mail pelo menos não. Houve um conflito entre cristãos e muçulmanos que resultou numa morte, o Governo quer evitar manifestações de ódio e tudo o que é rede social está cortado por tempo indefinido, assim como retomou o recolher obrigatório.
Enviei e-mail aos que fui encontrando no meio da salganhada da minha caixa de entrada, a dizer que estávamos quase incomunicáveis, por tempo indeterminado. O importante era passar a mensagem pelo menos à minha mãe e pai para os deixar descansados.

Mais descansada, assim assim relaxada, fomos até um restaurante com pinta, daqueles que evitamos sempre por serem mais caros que os demais.
Entre o neurocientista russo que estuda os indianos, um japonês que afinal era brasileiro e um casal de turcos, a maior parte do tempo passámos a ter conversas profundas sobre a vida, a beber e a fazer um quis improvisado sobre o mundo.
Divertimo-nos bastante, com alguma cerveja a ajudar na festa. Para quem não bebe com regularidade pode ter sido uma grande festa.

O plano seguinte era ver Game of Thrones para terminar o dia em beleza, mas mais uma vez a internet foi madrasta.
Parabéns e bolo houve por parte das minhas migas na madrugada anterior. Que sorte a minha em tê-las.

Apesar de não ter conseguido ler as mensagens que me foram deixando no dia da aparição, senti-me muito amada. Tenho um Bagagem espectacular comigo e este dia só vem reforçar que tenho gente desse lado que me valoriza e me quer bem.
Eu adoro fazer anos e adoro o meu cabelo branco (ainda é só um).
Adoro que os anos passem e sentir que à minha maneira, não estou a deixar por fazer aquilo a que me vou propondo.

Nos últimos anos passei aniversários na Queima de Coimbra, em casa doente, numa grande festa em casa do meu pai (estou proibida até aos 50 de repetir, mas ainda bem que já não falta tudo), a festejar a Eurovisão, o Papa e o Benfica Campeão (coisas que normalmente não festejaria, tudo no mesmo dia), numa casa assombrada nos Açores, em Lisboa, Barcelona, num pick-nick com amigos…
Independentemente de onde esteja, vou sempre encarar este dia como um dia feliz, onde começo a escrever mais um ano da minha história.

Com amor,

Marta, 28 anos e um cabelo branco

Ao som de Linda Martini – Adeus tristeza 

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