14 de Maio – Ella para Arugam Bay

Apanhámos o bus em Ella para vir até Arugam Bay, uma zona de surf na costa este. Fomos logo enganados para mais do dobro no autocarro e saltou-me a tampa. É que o gajo não foi meigo, já se vinha a rir e a comentar alguma coisa com o amigo.
Basicamente disse-lhe para me dar o talão e o preço real, que não ia pagar aquilo por 50 quilómetros, quando mesmo a sermos aldrabados, não chegámos a pagar isso para mais do dobro do percurso. Ele bazou.
Entretanto, chegámos a uma das cidades, o autocarro parou e do nada entra um homem a dizer que era ali que tínhamos de trocar para ir para o nosso destino. Ficámos confusos porque não foi isso que nos tinham dito antes. Na pressa de sair do autocarro, demos uma nota ao condutor e seguimos o tal homem.
Levou-nos a uma espécie de banca na estação, onde havia um outro indivíduo, que nos disse que para Arugam Bay só havia autocarro ás 13 horas e que o valor eram 450 Rupias.
Ainda não eram dez da manhã, e vimos logo que era treta. O que não faltam são autocarros neste país, a passar para todo o lado, com milhentas ligações. Sabíamos que estávamos a ser enganados e que aquilo era esquema e uma fezada daquelas onde iam ganhar a porra de dois ou três euros, por cada um de nós.
Virámos costas e fomos à procura do autocarro que seguia até à cidade onde seria a ligação. Lá estava ele, com sorte deram-nos o preço real e tudo.

Duzentas rupias vale um euro. Com este dinheiro é possível fazer uma refeição, em sítios não turísticos, para dois. É possível entrar em alguns templos (os que estão fora daqueles preços turísticos absurdos), beber dois cocos, fazer uma viagem de mais 100 quilómetros de autocarro, se não formos enganados.
E é aqui que queremos chegar. Em mais de 15 deslocações até à data, houve apenas duas onde nos deram o preço real. Estamos a falar de nos cobrarem mais 50, 100 rupias, que não ultrapassa a módica quantia de 0.50€. Mas nós não gostamos de ser enganados e por este motivo lutamos contra este aspecto incutido “culturalmente”, até ao tutano – preços inflacionados para o estrangeiro, que às vezes vêm com um sorriso de “já te lixo” à mistura.
Entre isto e os cingaleses serem um povo extremamente “friendly” e bem disposto, vai uma distância que por vezes ainda não conseguimos desmistificar. O que acontece nestas alturas é que se baixamos a guarda podemos muito facilmente ser enganados.
Sri Lanka não é caso único, aconteceu-nos no Camboja e no Vietmane, também. Da nossa percepção, não é de todo sinónimo de países mais pobres e vai acontecendo cada vez mais, se o estrangeiro não der para trás.
Quando se faz uma viagem destas, onde o budget é controlado, é desgastante todas a vezes negociar ou pedir o preço real. Já tivemos gente que ficou envergonhada, como também já tivemos quem nos mandasse sair do autocarro antes da nossa paragem por ter ficado irritado com a nossa ousadia. Às vezes vencem-nos pelo cansaço, outras vezes, vencemos nós pelo constrangimento.
Faz parte do jogo, da viagem… Vestir uma pele nova a cada fronteira que cruzamos e adaptarmo-nos ás circunstâncias.

 

15, 16 e 17 de Maio – Arugam Bay

Arugam Bay será como Ella. Um lugar super turístico, sem turistas nesta altura, apesar de ser a época alta deste lado da costa. Estamos a pagar 5€ com pequeno-almoço em quarto privado, com casa de banho, num sítio muito fixe a 20 segundos a pé da praia. O valor normal são 25€ a noite, mas o dono está a tentar chamar gente. Não nos parece estar a ser muito bem sucedido porque não há assim tantas pessoas e há milhares de opções de alojamento.
É uma zona super chill, com montes de surfistas locais. Rastas, cabelo comprido e pontas queimadas do sol, tipo Bagagens só um bocadinho mais escuros. As estrangeiras ficam malucas. Sendo a maioria muçulmana por cá, e só podendo tocar numa mulher depois do casamento, enrolarem-se com uma “branca” é uma forma de escaparem à rédea curta imposta pela religião e família.
O dono do Hostel conta-nos que antes de casar teve com muitas namoradas estrangeiras, mas atenção, que nunca uma rapariga faça isso.
Falamos de como a religião afecta a vida das pessoas, de como as condiciona e se acha que daqui a uns anos isso não vai acabar. Diz que sim, mas ele é excepção à regra. Considera que agora os casamentos já não são arranjados como na época dos pais, e daqui a uns anos essa coisa de casar para ter sexo vai acabar. No entanto, defende-a como uma coisa boa, pois “Se não gostares à primeira não podes largar, aprendes a gostar”. Isto vale para ambos os lados.
O funcionário cá do sítio, um puto, está casado há cinco meses, com a rapariga de 15 anos, grávida de cinco meses. Conveniente. Perguntei-lhe porquê filhos já, ele pergunta-me porque ainda não tive. Rimos e sabemos que as diferenças culturais são enormes, respeitamos. Parece que nenhum de nós trocaria de lugar.

Aqui, e em todos estes países somos casados (5 anos a viver juntos contam, não?. Levam-nos mais a sério e evita explicar muita coisa (o mesmo que em Portugal, no fundo).

Ainda em relação a diferenças culturais, nesta zona é curioso mas em absolutamente nenhum estabelecimento comercial, seja ele qual for, vimos uma mulher. As mulheres estão em casa a cuidar da mesma e dos putos, pois os homens têm o dever de sustentar a família.
É também época do Ramadão, e enquanto vimos uns super empenhados em cumprir há outros que estão a borrifar-se para isso.
É o caso do James, o puto que conhecemos na praia e com o qual o Bag já foi surfar. “Trabalha” no restaurante do irmão, que tem sido a nossa cantina nestes dias, fazem preços com desconto, e servem-nos doses generosas de comida boa.
É impressionante como funciona tudo aqui, mesmo que super relaxados. Para eles, trabalhar mais de dez anos é para malucos. Desde que tenhas um telhado, uma prancha e o que comer, está tudo bem.
Nós somos mais ambiciosos e isso não faz com que a nossa vida seja melhor, é a conclusão a que chego.

O Bagagem tem tirado a barriga da miséria, anda roto de tanto surfar. Ontem fomos ao Whisky Point, um spot de surf, com o James e um amigo. No caminho de volta, vimos um elefante lá no fundo, depois de sermos interpelados por uma manada de búfalos de baixo de uma chuvada torrencial.
Adoro isto. A sério, adoro toda esta vida animal, toda esta descontração, despreocupação, toda esta pureza, genuidade, esta forma simples de abraçar a vida.
Molhados até ao tutano, deixámos a mochila no hostel e fomos para dentro do mar. Estava mais quente dentro de água do que fora. A baía e as palmeiras são lindas mesmo com chuva.

Já ontem, ficámos na água até ser de noite, a ver a lua nascer de um lado e o sol a pôr-se do outro. Nunca há horas e nunca fazemos ideia de que dia da semana é.
Que maravilha, não quero sair daqui. Sei que o Bagagem está comigo nesta explosão de sentimentos e é nestas alturas que damos conta da sorte de nos termos um ao outro e de viver esta experiência.

 

18 de Maio – Arugam Bay para Kataragama

O símbolo na bandeira do Sri Lanka é um leão (não há cá leões), mas podia ser justamente um esquilo, corvo ou camaleão. Ou talvez um pavão, um elefante.
A diversidade é tanta e está em todo o lado.
Para dar de caras com os mais diversos animais no seu habitat natural, Sri Lanka deve ser um dos melhores lugares do mundo, com certeza.
E finalmente, hoje vimos dois elefantes à beira da estrada a alimentar-se em árvores de fruto. Surpreendentemente, o autocarro ia quase vazio e a nossa emoção foi tanta que para além de ficarem a olhar para nós a achar que éramos lunáticos, o condutor foi tão querido que abrandou para podermos tirar uma foto.
Foram os nossos primeiros assim mesmo ao pé e esperemos não os últimos.

Observar a vida ao redor das estradas principais e as paisagens é sempre prazeroso, ainda para mais se não formos em modo sardinha enlatada.
Sri Lanka é verdejante e também muito seco, tem planícies gigantes e rochedos caídos no meio delas. É diverso, é bonito mesmo.

Chegámos a Kataragama suados e porcos. A morrer de fome, demos de caras com um dos restaurantes da cadeia “Perera & Sons” – estão em todo em lado.
Em conversa, percebemos que Kataragama é também um óptimo ponto de entrada para o Yala Parque – o maior parque nacional do Sri Lanka. Tínhamos pensado ir a um dos mais pequenos, mas como tropeçámos naqueles elefantes no caminho e com a possibilidade de ver leopardos, negociamos com o amigo, do amigo do restaurante o preço e amanhã vamos “safarizar”.

Ainda não houve um único dia que reservássemos quarto sem ser no próprio dia, e aqui não foi excepção. Chegámos ao Eco Resort do Fernando – nome português que por cá ficou desde os tempos da colonização – e ficámos de queixo caído com a brutalidade do lugar.
Não é um resort, é um conjunto de construções, cabanas independentes, dormitórios, tudo com materiais tipo adobe e madeira. Uma brutal decoração. Envolvido em vegetação, vida animal, um rio, bem na fronteira do Yala, assim, um sonho de lugar para nós. Imagino-me tanto a viver num lugar destes com o meu Bag e uma dúzia de cães, cabras, galinhas e um elefante.
A oportunidade de confraternizar com o Sonic, o pequeno demónio, resgatado quando a mãe foi morta por cães, é única. Ao início não estava a achar muita piada ao facto de terem um primata como animal de estimação, mas percebi que ele é completamente livre, tem ali outros primatas ao pé e ainda assim prefere estar connosco e com o Fernando.

Este homem contou-nos que esteve emigrado na Alemanha trinta anos, onde deixou a mulher e um filho à um, para voltar ao Sri Lanka e construir este lugar. Diz que lá não era feliz, que a malta trabalha demais. Compreendo, é isso que se faz na Europa, trabalhar para acumular riqueza que no fim de contas nunca será nossa.
Acolheu o Lanka e o Uncle, pessoas com alguns problemas de integração na sociedade e eles também estão a tornar os nossos dias mais especiais aqui.
Entre música, conversas aleatórias e aulas sobre religião parecemos amigos de longa data. O Fernando propôs-nos ficar como Workaway, mas são as últimas semanas, o último destino e ainda há muito para desbravar. Se um dia voltarmos, vamos ter em conta este lugar. Nunca me vou poder esquecer do dom incrível desta gente, de nos fazer sentir em casa, a milhares de quilómetros de distância.

O que nos trouxe mesmo cá foi o complexo de templos de várias religiões, li algures num blog, pois é uma cidade que não está incluída nos roteiros mais turísticos.
Não são os templos mais bonitos que vimos, porém durante a nossa estadia decorreu o Vesaka – comemoração do nascimento, iluminação e morte de Buda – ainda que de forma discreta por causa dos recentes atentados e da proibição por parte do governo a grandes celebrações. É o dia mais importante do calendário Budista, e normalmente fica tudo iluminado com umas lanternas de papel ou construções de Leds, sempre em noites de cheia.

Nesta noite, o Fernando deu-nos boleia e juntos visitámos a mesquita, templo hindu e templo budista. Havia algumas pessoas de branco nas ruas, música, dois elefantes a serem cruelmente explorados, mas nada comparado com um dia de celebração normal. Tivemos direito a flores, chá, pinturas faciais, explicações pormenorizadas de deuses – tão pormenorizadas que não nos lembramos de nomes nem relações de parentesco, só percebemos que aquilo era uma grande salganha. A parte que achámos mais piada foi, de uma forma muito sucinta, a explicação sobre as preces: Buda não dá nada a ninguém, só mostra o caminho, então para dar coisas boas ou más, os crentes rezam a outros deuses. Há uns específicos só para desejar coisas más a outras pessoas. Quando essas coisas se concretizam a pessoa que fez o pedido não será prejudicada porque não foi ela que aplicou a maldade, foi o Deus escolhido para o efeito.
Boa táctica para se livrarem do mau Karma, seus budistas vingativos.

Durante o dia vimos muita gente a tomar banho no rio ali ao lado, onde lavavam um pobre elefante para as cerimónias e onde este se borrava como gente grande. Nisto, os peixes desfizeram um cagalhão gigante em segundos. É tipo um rio sagrado dizem eles, e aquela mistura de “resíduos orgânicos”, deve ser um poço de saúde. Eu é que não me punha lá dentro.

 

19 de Maio – Yala Parque

Acordámos às 5.30 da manhã para começar o safari. Nem dormimos bem de tanta excitação e talvez também, por ter mais de dez sapos na casa de banho, que não tem porta, um largarto e de nos terem dito que havia cobras da espécie “Naja Naja” – a mais venenosa -nas redondezas.
Não temos medo de sapos, mas ter um a saltar para a cama não é fixe e acabamos por dormir com um olho no sapo e outro no cigano.
Pensámos que íamos sozinhos, mas a cunhada e família do condutor também se juntaram. Não foram lá muito sociáveis e deviam, afinal de contas fomos nós que lhes pagámos a viagem.
A caminho do parque damos conta de muitos jipes com famílias locais, é fim de semana e é de facto um bom programa em família.

O jipe custou-nos 28€ para cinco horas e a entrada no parque 20€, cada um. A família de três adultos e uma criança, pagou 180 Rupias (0.91€) para entrar no mesmo parque que nós.
Aceito pagar, tudo bem, há que preservar o parque, mas é nisto que o Sri Lanka peca – na diferença absurda de preços entre locais e estrangeiros.
Que se lixe, a verdade é que valeu cada cêntimo.

Vimos crocodilos, javalis, pavões, “bambis”, várias espécies de roedores, tipo furões, primatas, búfalos, lagartos e assim lá para o meio demos com um elefante solitário. Sendo o Yala o maior de todos os parques, também há a possibilidade que os animais dispersem mais e pode ser difícil dar com eles. O nível de camuflagem destas criaturas é digno de um ninja.
Já estávamos a perder a esperança, quando entre mais de 20 jipes em fila, nos dizem que há um leopardo na árvore. Lá está o lindo! Com a ajuda de uns binóculos a imagem torna-se mais real. Tão bom. Não há nada como a sensação de estar perante estes animais, no seu estado mais puro. Desde miúda que via todos os domingos os documentários sobre vida selvagem, e sempre sonhei com este momento (ainda sonho com África, cada coisa a seu tempo) e é um prazer inexplicável.
Para cereja no topo do bolo só queríamos ver mais uns dos grandes. Ali, mesmo a chegar ao fim, numa planície verdejante, rodeada de montanhas, a tornar o quadro perfeito, lá estavam três elefantes, tranquilamente a comer erva e a ignorar a nossa presença e admiração.

Apesar de termos consciência de que esta é, talvez, a forma menos intrusiva de ver de perto os animais no seu estado natural, é ainda assim prejudicial. Estamos em época baixa, e mesmo assim, cruzamo-nos com cerca de vinte carros. Pela imensidão do parque, por vezes fazem com que nos sintamos “sozinhos”, mas pelo número, afastam e assustam os animais.

 

20 e 21 de Maio – Kataragama para Hiriketiya

Estou apaixonada por este macaquinho, que teve nestes dias, a missão de me arrancar o piercing. Até acho que foi contratado pelo meu pai. É impressionante ver a curiosidade do bicho, as mãozinhas, os abracinhos de amor. Mas é hora de dizer até um dia. O Fernando levou-nos à estação e o pequeno Sonic foi nas costas dele o caminho todo. Opa, que fofo.

Hoje demos início ao nosso roteiro pela costa sul.
Para começar, esta praiinha em forma de baía, rodeada de palmeiras, não está nada mal.
Damos conta que dos poucos restaurantes, apenas meia dúzia estão abertos, e só dois têm valores “suportáveis”, ainda que com preços muito acima da média. A maior parte das coisas, até as barracas na praia estão fechadas e voltamos a ser os únicos na Guesthouse de uma família muito querida.
Pelo menos os cocos custam 50 Rupias (0.25€) e bebemos até encher a pança. Para quem não gostava, estamos fãs do King Coconut, o amarelinho cá do Sri Lanka.
Há muita gente na água, quero dizer umas vinte pessoas a fazer surf mas as pranchas são caríssimas e não estando as condições no seu melhor, o Bag deixa para as próximas.

Aqui a ondulação é mais forte e já parece o nosso mar. No segundo dia ainda apanhámos com alguma chuva para nos fazer lembrar que é a época das monções por cá.
Aproveitamos para fazer pouco ou nenhum. Estamos a começar a contagem decrescente nas nossas cabeças. O tão temido regresso está a dez dias de distância, e por isso não nos culpabilizamos de não fazer coisas mega interessantes.
Para além disso ando super cansada, sem motivo aparente e nem é do período ou coisa que o valha.

 

22, 23, 24 e 25 de Maio
De Hyriketya para Mirissa
De Mirissa para Welingama
De Welingama para Delawella

Foram dias aborrecidos, não me apeteceu escrever, nem fazer nada.
Já sei de onde vem o meu cansaço. Tenho parasitas, outra vez. O comichão no rabo, a diarreia intermitente, a falta de apetite da última semana, são tudo sintomas que já conheço.
Foi altura de tomar outro desparasitante, aliás dois, e esperar que faça efeito.

Porra, falta menos de uma semana para ir embora. Torcemos para que resulte para aproveitar os últimos dias.
Para além desta desanimação, chove, os hosteis onde temos ficado são uma porcaria, já trocamos três vezes nos últimos quatro dias. Nunca nos movemos mais de cinco quilómetros na esperança que a praia/zona do lado seja melhor. Até porque o objectivo era ficar num sitio que gostássemos e explorar arredores de autocarro.
À excepção de Mirissa, onde passámos um bom bocado e vimos um pôr-do-sol magnífico, nada nos tem surpreendido.
É preciso notar que para além de ser época baixa, por causa das chuvas nesta zona, está também o efeito bomba à vista. Lojas, restaurantes, hotéis, barracas de gelados, as espreguiçadeiras na praia, a grande maioria está fechada, e com aspecto abandonado.
Muito lixo na costa, água poluída, dezenas de cães com sarna, e centenas de “barracas” com toldos rotos, partidas, dão um ar muito degradado a isto.
Toda a gente nos falou coisas boas desta costa, nas quais acreditamos. Talvez na época certa e sem uma baixa de 80% no turismo (dizem os media), as coisas fossem diferentes por aqui.
Vamos continuar caminho, esperar que o tempo, a zona e a minha condição melhor.

 

26, 27, 28 de Maio – Hikkaduwa

Poucos quilómetros depois da última paragem, demos com este cantinho bom.
Ultimamente os check – point têm desaparecendo. JáJfaz um mês e meio desde os atentados.

Hikkaduwa não é o paraíso – acho que nesta altura estamos muito exigentes – mas a praia está limpa, é uma zona que para além de ser, provavelmente, turística na época alta, também é casa de muita gente. Há mercearias, tascos e restaurantes abertos e liberdade de não comer Rice and curry todos os dias.

Mais uma vez, estamos sozinhos no Hostel e arriscamos a dizer que é o melhor onde ficámos em todo o tempo da nossa viagem.
Mais limpo era impossível, rodeado de vegetação, com brutais condições e ainda com o melhor pequeno-almoço da história – Chami’s Place.
Temos sido tratados como reis e eu aos poucos vou ficando melhor. O comichão desapareceu, o cansaço está atenuado, só as diarreias é que teimam em não me largar.
Despedida à grande da Ásia, que é para ir mais magrinha.

Aproveitei para escrever muito, quero ir com tudo em dia. Para falar com família e alguns amigos, aos quais continuamos a mentir, dizendo que o próximo destino é Índia.

 

Apesar de não estar bom para surfar, os dias aqui não foram em nada aborrecidos:
Exploramos a cidade fortificada pelos portugueses – Galle – a uns quilómetros de distância. É sem dúvida o lugar mais “charmoso”, com muitas provas bem conservadas da colonização portuguesa, holandesa e britânica por cá.
Demos uma volta na cidade “não murada”, onde a azáfama é a normal. Era Domingo e havia muita gente entre compras e vendas e nós fizemos umas comprinhas de especiarias de última hora para apimentar a nossa comida em Portugal.

 

Num outro dia, visitámos o Museu mais rural onde estivemos, o original, Museu do Tsunami. Construído sobre as paredes devastadas pela segunda onda que varreu a Ásia no dia 26 de Dezembro de 2004, provocando mais de 300 mil mortes. 

Só no Sri Lanka foram 50.000 mortos, e nesta pequena aldeia 3000. É poderoso e arrepiante estar no lugar, agora reerguido, que levou com o poder da natureza daquela forma.

Aqui nos arredores há uma grande lagoa, envolta em habitações e num passeio de bicicleta conseguimos espreitar por entre a casa de um senhor simpático as bonitas paisagens. A gente aqui é generosa, mesmo. Desde o homem do restaurante que nos fez os preços do menu local, ao Chami que nos emprestou bicicletas, snorkeling, nos levou à lota de madrugada de tuk-tuk e nada cobrou, ao senhor das estátuas de madeira que nos ofereceu um porta – chaves…
Fizeram mudar-nos por completo aquela ideia inicial de que tudo e todos nos queriam enganar. Ainda bem!

Entre snorkeling, criaturas marinhas mesmo à beira da água, ainda tivemos o privilégio de ver as amistosas tartarugas, que todos os nascer e pores do sol, vêm à costa para se alimentar ou ser alimentadas.
À primeira vista parecem rochedos, são gigantes, lindas e devem ter milhões de histórias para contar. Nisto o Sri Lanka nunca nos desiludiu: vida selvagem.
É um privilégio e ao mesmo tempo é assustador. Se por um lado nos cruzamos com tantas formas de vida, por outro tropeçamos em milhares de formas de destruição da mesma.

 

29 de Maio – Hikkaduwa para Maskelya

Despedimo-nos da Costa Sul da melhor forma e coração cheio. Agora sim, estamos a contar os dias. A ansiedade apodera-se um bocadinho e sabemos que não ter contado nada à família e amigos foi a melhor solução. Caso contrário, sermos bombardeados com a lembrança de voltar todos os dias, faria com que iniciássemos a contagem muito antes.

Que coça. Entre uma viagem de duas horas de comboio e mais de sete horas de autocarro, sobre curvas e contra curvas, chegámos à cidade de Maskeliya, a nossa base para subir o Adam’s Peek.
Sinto-me com energia, mas o número é gordo. Cinco mil escadas e iniciar a subida às duas da manhã depois de um dia destes.
Que se lixe, só se vive uma vez.
Chegámos noite serrada e negociamos um tuk-tuk, era suposto estar ás duas na homestay, mas à uma já estava a ligar. Passei-me. Tive de reclamar, mas fora da cama de pouco me valeu. Nem sei se dormimos três horas. Eles fazem isto, para despacharem o trabalho e ir dormir mais cedo.
Foram 14 quilómetros de trambolhões no tuk-tuk até ao início da, ainda, ténue escadaria.
Estamos a falar do ponto de peregrinação mais importante do país.
O Adam’s Peek, é uma montanha cónica, com 2243 metros de altura. No topo foi construído um templo onde está a pegada de Buda, Adão ou Shiva, depende da preferência e crença de cada um.

Nem sabíamos bem o que nos esperava. Com um céu estrelado sobre as nossas cabeças, foi o nosso dia de sorte. O caminho não estava iluminado, como é costume na época alta, e para além de um porco espinho gigante que interpelou o nosso caminho, não vimos uma viva alma até chegar ao topo. As dezenas de barracas de frutas, chá e afins estavam fechadas.
Ás escuras, subimos sem pressa. Levámos duas horas e meia, sem nenhuma paragem significativa por causa do frio. Cada vão de escadas é uma superação.
Quando pensamos que não dá para mais um passo, conseguimos sempre um pouco mais. Quanto mais nos aproximamos do topo mais difícil fica e as placas a dizer os metros passam a ser o nosso maior inimigo.
Estafados chegámos, aos poucos começa a chegar mais gente. Somos uns 10 no total. O templo principal está fechado e só há um homem por lá que vende chá e café.
Trocamos as t-shirts suadas e vestimos tudo o que temos. Falta uma hora e meia para o nascer do sol e até a manta térmica enrolamos às pernas.

São 5.45 e o Sol começa a aparecer. Estamos sobre as nuvens e é neste momento que damos conta que o esforço valeu a pena. A cada segundo fica mais quente e brilhante, penetra nas nossas caras e faz-nos sentir vivos, inteiros sortudos.
Na volta, damos conta da imensidão de verde, montanhas, cascatas e campos, naquela que foi a descida mais dura das nossas vidas
Foi épico e tenho a certeza que os próximos dias, as dores nos vão fazer lembrar disso.

30 de Maio

Dia a vegetar. Não tenho mais nada a dizer sobre isto.
Feitos parvos nem alongamos e o resultado está à vista.
Entre umas refeições e meias sestas temos de ir à cidade e não tendo mais nada que vestir lavado nesta altura do campeonato, vou de calções e sou alvo de muitos olhares.
O rio, os campos de chá infinitos e o Adam’s Peek lá ao fundo fazem desta cidade inacabada – parece que está tudo em construção – um lugar bastante agradável.

 

31 de Maio – Maskeliya para Negombo

Três autocarros e um tuk-tuk depois, chegámos ao sítio onde vamos passar a nossa última noite no Sri Lanka e na Ásia – para já.
Negombo é ponto estratégico visto que fica a oito quilómetros do aeroporto e é mesmo só por isso que viemos.
É zona turística, de gente muito chata a tentar vender tudo e uma praia muito suja.
Damos uma volta para tentar esticar as pernas depois da estupidez que fizemos antes de ontem.
Não me vou poder esquecer que subir e descer de uma enfiada 5000 escadas é uma estupidez a não ser repetida. Estamos acabados.

Fazemos a mochila, amanhã é dia de fechar este ciclo e começar um novo.

1 e 2 de Junho – Entre voos, escalas e aeroportos
O regresso!

NOVE MESES! Dava para gerar um puto, mas optámos por visitar dez países e mudar as nossas vidas para sempre.
Estamos a caminho…
Nem sabemos como, passou a voar. Nenhum de nós pode dizer que está a morrer de saudades mas a esta altura vai saber bem rever família e amigos.
Entre três voos e duas escalas, estamos a agora no aeroporto de Milão a contar os minutos para aterrar no Porto. Por lá, vamos jantar com malta que conhecemos pessoalmente no Camboja e nos vai dar cama, e com outros que conhecemos através das redes sociais. Se tudo correr como planeado, chegamos às 20 horas e seremos nove aspirantes a viajantes a partilhar mesa.
Dia três, o Nadal vai buscar-nos e vamos surpreender a família. Será um dia de emoções fortes, disso temos a certeza.

Família, amigos, conhecidos, desculpem as mentiras descaradas que vos espetámos. Consideramos que foi melhor assim.
Foi o último país desta aventura, mas coisas novas se seguem.
Não deixem de nos ler.

Um obrigado do fundo do coração,
A transbordar de amor,

Marta & Bag

Ao som de Bob Marley – Three little birds

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *